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Filmes e Educação


A relação entre filmes e educação está cada vez mais presente nos livros didáticos e nas salas de aula. Isso ocorre não só na área de humanidades, onde é mais comum, mas também nas disciplinas de ciências exatas e biológicas. No final de cada capítulo de um livro didático, quase sempre podemos encontrar a indicação de um filme com referências ao conteúdo estudado. A sala de vídeo de escolas e universidades faz a alegria de estudantes entediados com aulas expositivas, que se livram de duas horas de falação e exercícios através da exibição de filmes escolhidos pelo professor. No entanto, muitas vezes, após meia hora de filme, a garotada já está implorando por uma lobotomia ou algo qualquer que faça cessar a angustiante sessão de cinema.

O problema é que na maioria das vezes os filmes indicados por livros didáticos ou escolhidos por professores são produções datadas que não correspondem à linguagem de cinema que os jovens estão acostumados hoje. Um professor que tente exibir na íntegra a obra “Outubro” de Sergei Einseinstein corre o risco de sofrer por parte de seus alunos uma crítica mais rigorosa do que a recebida pelo Czar Nicolau II por parte dos bolcheviques. Na verdade, em tempos de youtube e costumes tão frenéticos em relação às mídias audiovisuais, a turba munida de seus Ipods e Iphones pode dar a tal professor um fim mais cruel do que o dos Romanov.

Contudo, até que ponto essa experiência entre filmes e educação pode ser frutífera didaticamente se há uma clara distância entre estética cinematográfica antiga e costumes modernos? Bom, nem só de filmes antigos vive a ciência. Existe uma longa lista de filmes com produção recente que são utilizados com fins didáticos. A questão é se os filmes possuem mesmo algum poder de sedimentação de conhecimento durante o processo de aprendizado.

Quem nascido lá pela década de 1970 e 1980 não passou pelo choque de ver o documentário “Ilha das Flores” em alguma sala de projeção e saiu estarrecido após ver os seres com tele-encéfalo altamente desenvolvido e polegar opositor darem lixo rejeitado pelos porcos como refeição a um grupo de crianças? Ninguém pode negar que o trauma tem um poder pedagógico muito poderoso em nossas mentes, mas fora alguns documentários que nos estrangulam na cadeira, é questionável se a maioria dos estudantes comuns possuem ferramentas intelectuais maduras o suficiente para captar os subtextos de filmes mais sofisticados, nos quais a mensagem não vem trazida ao telespectador numa bandeja.

Um documentário como “Fahrenheit 11 de Setembro” de Michael Moore é ótimo para despertar o senso crítico da molecada, mas e um filme denso como o primeiro “Matrix dos irmãos Wachowski, quantos poderiam captar tantas referencias históricas, filosóficas, religiosas, científicas, entre outras? Mencionamos o primeiro filme da saga de Neo porque os outros dois Matrix nem mesmo os 20 maiores pensadores da história entenderiam...

Filmes muitas vezes são como “piadas internas”. Só tem graça pra quem é do grupo e conhece o assunto. Um filme que não faz sentido nenhum para uma pessoa, pode deixá-la impressionada 10 anos mais tarde. Woody Allen afirmou não ter sacado qual era a do filme “2001, Uma Odisséia no Espaço” de Stanley Kubrick nas primeiras vezes que o assistiu. Anos mais tarde ele reconheceu que a genialidade do filme estava muito além de seu tempo e de sua percepção, só podendo entendê-lo mais tarde. Trata-se de Woody Allen, um ser com tele-encéfalo altamente desenvolvido e polegar opositor e que domina os códigos da linguagem cinematográfica! Neste sentido, seria justo exigir que o estudante comum captasse mais do que entretenimento diante dos filmes que são colocados à sua disposição?

“Um país se faz com homens e livros” dizia Monteiro Lobato. O professor e os livros didáticos são insubstituíveis. Sempre. Filmes como material de apoio podem ajudar a fixar algumas idéias, distorcer outras, mas sempre dependerão da maturidade e experiência intelectual de quem assiste ou da presença de alguém que possa “decifrar parte do código”. Falamos em “parte” porque, em primeira instância, filmes são obras de arte e ninguém pode dar conta da infinidade de significados das imagens que correm na tela e como elas interagem com a alma de quem as assiste. E assistir um filme como “Spartacus” puramente do ponto de vista pedagógico, já é um empobrecimento da experiência. Bons filmes devem ser indicados sempre, mas é sempre bom deixar claro que nessa relação entre filme e educação, o primeiro é apenas a cobertura do bolo. E a cobertura será muito mais bem saboreada se o recheio for consistente. 

Um comentário:

Anônimo disse...

Muito bom... e como ficamos anos e anos assistindo "enlatados", para recuperar o termo já em desuso, nossas almas, dos nossos filhos e netos, se relacionaram com outras sociedades sem se dar conta do que estava "penetrando" em nosso ser...
Somos resultado de algo inexplicado claramente.
Augusto

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