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O que é Literatura?


“A ciência é grosseira, a vida é útil. E é para corrigir essa diferença que a literatura nos importa”. Essa frase de Roland Barthes, salvo o exagero que comporta, pode ser vista como uma tentativa de situar o lugar ocupado pela literatura na experiência humana. O mesmo autor, renomado crítico literário, também escreveu que a literatura comporta todos os conteúdos. Longe de nós, querer entrar, neste sucinto espaço, pelas veredas do filosofar literário. Queremos, antes, deixar apenas uma abertura para a reflexão sobre essa criação artística que nos acompanha ao longo da história.

Mas, afinal de contas, o que é Literatura? Infelizmente e ao contrário do que se possa esperar, não temos para essa pergunta, aparentemente simples, uma resposta objetiva e categórica, pois não há para este conceito uma definição completa, que abranja a literatura em todas as suas formas. Fato que acaba nos levando para uma característica intrínseca à literatura, a de que a obra, em geral, extravasa e desafia os limites teorizadores da crítica. Mas, para aclarar melhor a questão, ficaremos com a idéia de que a literatura é um tipo de expressão artística que tem como princípio o trabalho com a palavra, utilizada na escrita e também na fala.

Mas como saber que tipo de trabalho com a palavra é considerado como arte? Para responder essa questão, tomaremos como exemplo a diferença entre o texto jornalístico e o texto literário, já que ambos trabalham com a palavra.

Podemos distinguir os diferentes tipos de textos pela ênfase dada a um dos componentes da comunicação: o código (sistema de sinais que é utilizado na comunicação), o emissor (aquele que emite a mensagem – fala ou escreve), o receptor (aquele que recebe a mensagem – ouve ou lê), a mensagem (aquilo que é transmitido), o canal de comunicação (meio empregado para o envio da mensagem: oral, escrito etc.) e o referente (sobre o que se fala ou se escreve). A cada um desses elementos da comunicação corresponde uma função da linguagem: a metalingüística, a emotiva, a apelativa, a poética, a fática e a referencial.

Para responder à nossa pergunta, interessa-nos duas dessas funções: a referencial e a poética. A primeira é aquela em que se dá destaque ao referente, ou seja, àquilo sobre o que se fala; esse tipo de função é a que predomina nos textos jornalísticos, nos quais o principal objetivo é transmitir a informação. Já a função poética é aquela em que se destaca a própria mensagem, nessa função o trabalho com a linguagem é enfatizado e o texto em que ela predomine resultará elaborado. Para melhor caracterizar essas duas funções, cabe lembrar a diferenciação entre denotação e conotação. Considera-se denotativa aquela expressão na qual as palavras estão em seu sentido comum, cotidiano, ou seja, elas se encontram como as usamos no dia-a-dia ou como traz o dicionário. Conotativa é a expressão que resulta num deslocamento de significados, por meio do qual a língua foge de seu uso habitual, fazendo com que as palavras, devido a associações não usuais, ganhem uma maior mobilidade de sentido. A palavra sendo usada dessa forma caracteriza o texto literário.

Cabe notar que em um mesmo texto podem, e geralmente vão, coexistir várias funções da linguagem diferentes. Dessa forma, é mais pertinente dizer que num texto poético a função poética se sobressai, mas convive com as outras; o mesmo ocorre com a função referencial no texto jornalístico.

Exemplo dessa convivência de várias funções da linguagem em um mesmo texto é o poema “Procura da poesia”, de Carlos Drummomd de Andrade, em que, além da função poética, tem destaque também a função metalingüística, visto que fala sobre o próprio fazer poético. Além dessas duas, poderíamos notar ainda a função apelativa.




“Penetra surdamente no reino das palavras.

Lá estão os poemas que esperam ser escritos.

Estão paralisados, mas não há desespero,

há calma e frescura na superfície intata.

Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.

                            (...)



Chega mais perto e contempla as palavras.

Cada uma

Tem mil faces secretas sob a face neutra

e te pergunta, sem interesse pela resposta,

pobre ou terrível que lhe deres:

                           


Trouxeste a chave?”

Já que estamos falando justamente do fazer literário e da diferença desse para outros tipos de textos, reparem no que diz o poema. O eu-lírico (o “eu” que expressa no poema e não é o autor) apresenta para o leitor a dificuldade do ofício de escrever. Mostra o quão é inquietante a busca pela palavra que expresse o que se quer dizer. E o que se quer dizer, a simples palavra, em estado de dicionário, não pode. É aí que se faz necessária a imagem poética, ou seja, a combinação exata de palavras exploradas em suas múltiplas faces, que aproximará o “indizível” ao texto poético.

O crítico literário Octávio Paz tomou como exemplo para explicar o que seria essa “imagem poética” uma conhecida brincadeira de criança: “o que pesa mais, um quilo de chumbo ou um quilo de pluma?” As crianças, apegadas às características mais evidentes dos objetos, prontamente respondem: “um quilo de chumbo”. Ao passo que alguém zomba: “mas os dois têm um quilo”.

O que Octávio Paz quer nos dizer com isso é que a imagem poética se faz justamente da aproximação de elementos díspares. Por exemplo, a pedra tem por característica ser pesada, a pluma, leve. Mas quando, em um poema, afirma-se: “as pedras são plumas”, cria-se uma ligação entre elas, que se dá por meio de uma abstração análoga a que se tem que fazer para dizer que um quilo de chumbo é igual a um quilo de pluma. Da relação estabelecida entre essas duas realidades, nasce uma terceira realidade, que é a da imagem poética. É por meio dessa recriação da linguagem que os poetas procuram dar forma e expressão ao inexprimível na linguagem comum, cotidiana, causando nos leitores o que podemos chamar de prazer literário.

Um comentário:

Jean Carlos Padilha disse...

Parabéns pela forma como aborda o assunto! Muito bom o site. O recomendarei a demais pessoas.

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