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Trovadorismo II


Nas primeiras décadas do século XIII, o território português enfrentava uma guerra pela reconquista do solo português, em parte, ainda sob domínio mourisco. Em contrapartida, cessada a guerra e expulsos os mouros, o ambiente proporcionado pelo período pós-guerra, de paz e tranqüilidade, era propício à intensificação da produção literária. Devido a isso, a poesia medieval portuguesa chegou ao seu ápice na segunda metade do século XIII.

O trovadorismo foi influenciado pela Provença, região meridional da França que se tornou no século XI um grande centro de atividade lírica. Com as cruzadas, Lisboa tornara-se o porto mais próximo para os fiéis embarcarem com destino a Jerusalém e, junto deles, iam jograis e trovadores.

Em Portugal e Galiza já havia um cenário predisposto à nova moda, pois se desenvolvia uma espécie de poesia popular de velha tradição. A fusão das duas correntes (provençal e popular) explica o caráter próprio assumido pelo trovadorismo nessas regiões.

O início desse movimento é marcado pela “Cantiga de Garvaia”, dedicada por Paio Soares de Taveirós a Maria Pais Ribeiro.

Características gerais: o nome “trovadorismo” vem de troubadour, como eram chamados os poetas na Provença, também chamados, no norte da França, de trouvère, cujo radical trouver significa “achar”. Assim, os poetas, trovadores, deveriam “achar” os versos e o som (melodia), ou seja, sua canção ou cantiga. Dessa forma, o poema implicava o canto e o acompanhamento musical.

Idioma empregado: galego-português, em virtude da então unidade lingüística entre Portugal e Galiza.


POESIA: divide-se em 1.  lírico-amorosa e 2. satírica

1.    POESIA LÍRICO-AMOROSA:

a)    Cantiga de amor

Nela, o trovador confessa de forma dolorosa e lamentosa o seu amor diante de uma dama inacessível, entre outras razões, por pertencer a uma classe social superior ou pelo fato de a mulher ser casada.

Mulher idealizada (chamada pelo eu-lírico, masculino, de mia senhor ou mia dona); amor idealizado e platônico.

Os apelos amorosos ganham aura de transcendência: repassa-os um torturante sofrimento interior que se segue à certeza da inútil súplica e da espera de um bem que nunca chega ou parece impossível: é a coita (sofrimento) de amor, que, afinal, ele confessa.

Forma a que se refere à dama: “amor cortês”, obedece ao código de comportamento recebido da Provença, segundo o qual o trovador teria de mencionar comedidamente o seu sentimento (mesura), afim de não incorrer no desagrado (sanha) da bem-amada, teria de ocultar o nome dela ou recorrer a um pseudônimo (senhal) e prestar-lhe uma vassalagem.

Recorrência ao estribilho: além de marcar o ritmo do poema, reforça sua idéia central. Quando presente, a cantiga é chamada refrão e, quando ausente, cantiga de maestria.

Exemplo – “Cantiga de amor”, de Martim Soares

b)   Cantiga de amigo

O escopo do poema é agora representado pelo sofrimento amoroso da mulher pertencente às camadas populares (pastoras, camponesas, etc.). O trovador, amado incondicionalmente pela moça humilde e ingênua do campo ou da zona ribeirinha, projeta-se no íntimo dela e desvenda-lhe o desgosto de amar e ser abandonada, em razão da guerra ou de outra mulher.

O drama é o da mulher, mas quem ainda compõe a cantiga é o trovador: por ser ele precisamente o homem com que a moça vive a sua história e por ser ela analfabeta, como acontecia mesmo às fidalgas. Ou seja, o trovador finge ser a moça ao escrever.

No geral, quem ergue a voz é a própria mulher, dirigindo-se em confissão à mãe, às amigas, aos pássaros, aos arvoredos, às fontes, aos riachos.

Conteúdo: paixão incompreendida, à qual a moça se entrega de corpo e alma.
 
Ao passo que a cantiga de amor é idealista, a de amigo é mais realista.

Exemplo – “Cantiga de amigo”, de Martim Codax

 
2. POESIA SATÍRICA

a) Cantiga de escárnio

A sátira é feita por meio de referências indiretas, ironia, vocabulário de duplo sentido e não revelação do nome da pessoa satirizada.

Exemplo – “Ai dona fea”, de João Garcia de Guilharde.

b) Cantiga de maldizer


A sátira é feita por meio de referências diretas, sem rodeios e com agressividade, a pessoa a quem se destina a cantiga é citada nominalmente.

Exemplo – “A vós, Dona abadessa”, de Fernando Esguio.

Ambas são originárias da vida boêmia e marginal, que encontrava nos meios libertinos e tabernários o seu lugar ideal. Por isso a linguagem de baixo-calão: poesia “maldita”, descambando para a pornografia e mau gosto.
PROSA

Novelas de Cavalaria:


Originárias da Inglaterra ou/e da França, e de caráter tipicamente medieval, nasceram da prosificação e metamorfose das canções de gesta (poesia de temas guerreiros): estas foram se alongando a ponto de tornar difícil a memorização, deixando, por isso, de serem expressas em verso para o serem em prosa, e de serem cantadas para serem lidas. Dessas mudanças nasceram as novelas de cavalaria que chegaram a Portugal no século XIII.

Não há, contudo, nenhuma novela de cavalaria autenticamente portuguesa, todas eram traduzidas e aclimatadas à realidade portuguesa. Dos três ciclos que agrupam as novelas de cavalaria, somente as do Ciclo Bretão ou Arturiano tiveram grande popularidade em Portugal e geraram a famosa obra “A Demanda do Santo Graal”, que conta a busca (demanda) por um cálice sagrado (santo graal) que continha as últimas gotas do sangue de Cristo, recolhidas por José de Arimateia. Tal cálice só seria encontrado por um homem de pureza angelical.

De remotas origens célticas, a lenda, pagã e cantada em verso, cristianiza-se e é prosificada, na França em 1122, tendo ainda o nome do seu herói, Perceval, substituído por Galaaz (Galaad significa o “puro dos puros”, o próprio Messias). Daí seu caráter místico e simbólico. Os cavaleiros lutam por chegar à comunhão sobrenatural. A Demanda corresponde precisamente à reação da Igreja Católica contra o desvirtuamento da Cavalaria. Os cavaleiros andantes feudais acabavam por se transformar em indivíduos desocupados, bandoleiros. O Concílio de Clermont, em 1095, decidiu a organização da primeira Cruzada e a correspondente formação duma cavalaria cristã.

Curiosidade: Entre as novelas do Ciclo Clássico, que têm como tema o Cerco de Tróia e as gestas de Alexandre Magno, destaca-se a Roman de Alexandre, que, por ser escrita em versos de doze sílabas, deu nome ao famoso verso alexandrino.

Um comentário:

Anônimo disse...

Muito Bem! Finalmente noticias claras y simples sobre esta época.

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