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Auto da Barca do Inferno (Gil Vicente)


Publicada em 1517, essa obra foi encenada pela primeira vez para os reis portugueses: D. Manuel I e D. Maria de Castela. A história se passa numa espécie de porto em que tem lugar duas embarcações: uma que vai para o céu e é comandada por um anjo e outra que vai para o inferno e que é comandada pelo diabo e por um ajudante.

A ação da peça decorre da chegada dos personagens às barcas, personagens esses, pode-se dizer, escolhidos a dedo pelo autor, pois é notório que se tratam de tipos representativos das várias classes sociais da época: a nobreza, representada pelo fidalgo; o clero, pelo frade; os “trabalhadores livres”, pelo sapateiro; a judicial, pelo corregedor, bacharel e procurador; a dos agiotas e dos ladrões, pelo onzeneiro e enforcado; além disso, temos as figuras da feiticeira/cortesãs, representadas por Brísida Vaz e pela concubina do frade e, ainda, o judeu, personagem de passagem dúbia na peça, como veremos adiante.

Fato notório da obra é que, ao chegarem às barcas, as personagens estão mortas, o que, além de outros aspectos, permite a Iraildes Miranda (“Gil Vicente e o teatro medieval: a carnavalização em Auto da barca do inferno”, Revista: Acta Scientiarum, Maringá, v. 24, n. 1, p. 59-66, 2002) falar, em análise da obra, em uma literatura de carnavalização. Mas o que é carnavalização? Segundo Mikhail Bakhtin, a carnavalização é um processo em que nos é oferecida uma visão de mundo diferente da que estamos acostumados, uma versão não oficial. O termo “carnavalização” provém de carnaval (festas que primitivamente celebravam o começo do ano ou o renascimento da natureza, das quais, de alguma forma, originou-se o carnaval a que estamos acostumados), uma festa que se caracteriza, ainda hoje, pela liberação da restrição da vida: no carnaval são permitidas várias atitudes de liberdade que normalmente seriam reprimidas. Constrói-se, portanto, um mundo pelo avesso, no qual as distâncias entre os homens são suspensas, ou seja, um mundo sem divisões em classes sociais. Note-se, que, no “Auto da barca do inferno”, o fato dos personagens estarem mortos é crucial para essa igualdade entre os homens, na medida em que é algo a que todos estão sujeitos independentemente de suas posses e condição social.

É possível dizer, ainda, que na literatura carnavalizada há uma suspensão dos julgamentos morais, o que, no entanto, não ocorre, pelo menos não totalmente, na obra de Vicente. Apesar disso, é possível perceber outras características da carnavalização no “Auto da Barca do Inferno”, como afirma, por exemplo, Iraildes Miranda: o desvirtuamento da cultura oficial por meio do contraste entre duas imagens que se constroem em uma só, tais como a conjunção do sagrado com o profano. Na obra do escritor português há uma aproximação entre céu e inferno, que dividem o mesmo espaço; entre o erudito e o popular, reunindo em si características da mitologia clássica (as barcas do anjo e do diabo lembram a barca de Creonte, da mitologia clássica) e dos valores cristãos incorporados pelo teatro popular da Idade Média. O escritor também aproxima diferentes segmentos das classes sociais da época, submetendo todos os personagens aos mesmos rígidos julgamentos.

Além disso, é importante notar que a seriedade do tema está em relação direta de oposição ao modo como nos é contado, pois é notável a comicidade da obra, acentuada pelo sarcasmo expresso pelo Diabo na peça. Essa maneira de estruturar a obra aponta para mais uma característica da carnavalização: o convívio simultâneo do sério e do cômico. Ao construir seu drama dessa forma, Gil Vicente rompe com a rigidez do teatro clássico, que separava rigorosamente a tragédia da comédia. É importante perceber, também, que essa mescla do sério que é dito comicamente suaviza as pesadas críticas expressas pela obra.

A denúncia da degradação dos valores morais ditados pela sociedade da época é desenvolvida a partir da interação entre os personagens e os comandantes das barcas. Ambos, Anjo e Diabo, têm uma posição rigorosa diante dos outros personagens, julgando-os de forma sumária e legando-lhes, conforme seus pecados, à barca que lhes cabe.

A sentença do Fidalgo é a condenação da frivolidade, da soberba e da tirania. A do Onzeneiro é a condenação da usura, ganância e avareza. A de Joane (o parvo) é a glorificação e exaltação da modéstia e humildade. A do Sapateiro, a condenação da má fé no comércio e da hipocrisia religiosa. O Frade representa a condenação do falso moralismo religioso. Brísida Vaz (alcoviteira), a condenação da feitiçaria e da prostituição. O Corregedor e o Procurador representam a condenação da burocracia corrupta e do abuso do poder para fins próprios. O Enforcado traz novamente a crítica à corrupção, porém, em um setor mais baixo da hierarquia judicial. Os Cavaleiros de Cristo representam a glorificação do ideal das cruzadas e do espírito do cristianismo puro. O Judeu, como já foi dito, representa a passagem mais confusa do livro. A princípio é rejeitado tanto pelo Diabo como pelo Anjo, sendo condenado a vagar sem destino pelo cais das almas, mas depois acaba sendo aceito pelo batel infernal, mas seguirá viagem em embarcação reboque. Essa é uma questão que não se resolve totalmente na obra: trata-se de um preconceito em relação aos judeus ou trata-se de uma preservação no sentido de que ele seria julgado por outros parâmetros? Uma explicação para essa cena ambígua pode ser a postura de tolerância que Vicente tomou diante dos judeus, chegando a defendê-los em uma carta ao rei.

Vale lembrar que os personagens são julgados e condenados ou absolvidos conforme suas ações em vida. Depreende-se dessa situação uma atitude moralista que julga a atitude dos outros segundo certas normas sociais. No caso do “Auto da Barca do Inferno”, pode-se dizer que essas normas são as ditadas pelo cristianismo, em especial as que se referem à idéia de um desprezo à vida terrestre e aos bens materiais para privilegiar a ascese e a valorização do espiritual. Concepção esta que traz alguns problemas para a noção de uma obra consciente, crítica de sua sociedade, pois, ao mesmo tempo em que ela é crítica, é moralista. Ao criticar os pecados dos homens ela salvaguarda a instituição. Contudo, deve-se considerar que Gil Vicente escreveu dentro do contexto do Humanismo, período em que, como é típico de fases de transição, predominava o bifrontismo, marcado pela convivência dos antigos ideais medievais, do moralismo religioso e maniqueísmo, e as novas concepções renascentistas que começavam a surgir. Isso explica uma crítica ainda apegada a traços moralizantes. Apesar disso, Gil Vicente foi sem dúvida um homem a frente de seu tempo, quebrou paradigmas e inovou a estrutura do drama, dando às suas peças um toque pessoal e único, o que faz dele, ainda hoje, um dos mais importantes nomes da literatura portuguesa.

5 comentários:

Alisson disse...

muito show

Anônimo disse...

A Catarina é um máximo!

Anônimo disse...

muito louco

vam ver q é muito fixe

Anônimo disse...

.... Enfimm... no coments

Anônimo disse...

O alto da barca é demaaaaaais. Muito bom.Quem não leu, leia, e quem esta prestes a ler, divirta-se.É um ótimo livro.

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