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Camões: Drama e Lírica



CAMÕES DRAMÁTICO:

Enquanto dramaturgo, Camões escreveu teatro aos moldes de Gil Vicente (“Auto de Filodemo” e “El-Rei Seleuco”) e aos moldes clássicos (“Anfitriões”), porém, diante da grandiosidade de sua poesia e da produção dos comediógrafos da época, não se pode dizer que produziu obra de grande relevância.

CAMÕES LÍRICO:

Camões produziu poemas nas duas vertentes que vigoravam em seu tempo, a medieval, expressa na “medida velha” (redondilhas), e a clássica, expressa pela “medida nova” renascentista (sonetos, odes, elegias, canções etc), subdividida em lírica e épica (“Os Lusíadas”). Em ambas as vertentes, Camões foi o maior poeta de seu tempo.

Medida velha: escritas na mocidade do poeta, suas redondilhas são, em geral, leves, brincalhonas, destinando-se à recitação na corte. Mas, ao gênero popularesco e folclórico da poesia medieval, Camões oferece dimensões mais vastas, fruto de sua grande experiência pessoal e de seu genial talento. O uso das antíteses e dos paradoxos ultrapassa as limitações formais das redondilhas, dando-lhes uma problemática nova, recheada de ambigüidades, trocadilhos, imagens e de magia verbal. Exemplo:

“PERDIGÃO PERDEU A PENA”

Mote alheio

Perdigão perdeu a pena
Não há mal que lhe não venha.

Voltas

Perdigão, que o pensamento
Subiu a um alto lugar,
Perde a pena do voar,
Ganha a pena do tormento.
Não tem no ar nem no vento
Asas com que se sustenha:
Não há mal que lhe não venha...

Quis voar a uma alta torre,
Mas achou-se desasado,
E, vendo-se depenado,
De puro penado morre...
Se a queixumes se socorre,
Lança no fogo mais lenha:
Não há mal que lhe não venha!

Neste vilancete, podemos observar a reflexão intelectualizada acrescentada à aparente simplicidade da forma emprestada da poesia popular medieval. A palavra é empregada como jogo por meio da ambigüidade dos sentidos. A palavra “pena”, por exemplo, é explorada em suas múltiplas acepções (pluma, instrumento de escrita, castigo, punição, piedade, compaixão, dó), despertando o leitor para a riqueza e expressividade da língua. O mote do Perdigão incorpora um tema popular do folclore português, o de que não há mal que venha só. Por meio do trocadilho com o vocábulo “pena”, o eu-lírico parece exprimir um drama íntimo que ganha alcance de drama universal.

Medida nova:

Camões encontra sua plena realização na poesia de inspiração clássica, chegando até mesmo a superá-la em mais de um aspecto, sendo, por isso, considerado um precursor do Barroco.

Sua poesia, nas palavras do crítico Massaud Moisés (A literatura portuguesa, 2008), “espelha a confissão duma tormentosa vida interior, repassada de paradoxos e incertezas, a reflexão em torno dos magnos problemas que lhe assolavam o espírito, não só provocado pelas suas vivências pessoais, mas também pela tomada de consciência dum desconcerto universal em que todos os seres humanos estivessem imersos”. Poeta de preocupações filosóficas, Camões mergulhou no angustioso mundo do “eu”, do amor, da vida, do mundo.

  • O soneto:

De origem controversa, o soneto atingiu vasto alcance e reconhecimento na Europa com Petrarca, que a ele fixou forma e conteúdo modelares. Composto por 14 versos dispostos em dois quartetos e dois tercetos, o soneto pode ser, quanto à métrica e à rima, constituído de variadas formas. Mas, tal como foi fixado por Petrarca, era composto de versos decassílabos e suas rimas dispostas segundo o modelo: ABBA – ABBA nos quartetos e CDC – DCD nos tercetos, sendo ainda comum o sistema CDE – CDE nos tercetos.

Os sonetos do Classicismo português seguiram os moldes do soneto petrarquiano, alcançando com Camões sua máxima expressão e triunfo. O que mais se conhece da poesia de Camões são os sonetos, dentre os quais encontramos os melhores de toda a literatura portuguesa.

A relação de Camões com Petrarca pode ser evidenciada na clara intertextualidade que o poeta português faz com um poema do poeta italiano, dos quais exibimos abaixo a primeira estrofe:

Poema de Petrarca

A alma minha gentil que agora parte
Tão cedo deste mundo à outra vida
Terá certo no céu grata acolhida
Indo habitar sua mais beata parte.

Poema de Camões

Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Céu eternamente,
E viva eu cá na terra sempre triste.

  • O Amor:

Em Camões, a concepção de amor é influenciada pelo neoplatonismo (ideias de Platão cristianizadas por Santo Agostinho). Sendo assim, o Amor (com maiúscula), em Camões, é visto como um ideal superior, único, como Bem supremo. O homem, porém, como ser carnal e imperfeito, retirado do mundo das ideias, no qual está a Verdade eterna e absoluta, jamais consegue alcançar esse Amor. Desse modo, o amor físico vivido pelo homem deve ser representado graficamente com letra minúscula, pois, na concepção neoplatônica, ele seria apenas cópia degradada do Amor ideal. Essa tensão entre ser e não ser, entre querer e não poder, é gerativa, na poesia de Camões, de toda a angústia, dor e insatisfação da alma humana. É por isso que as imagens poéticas instauradas pelo poeta para falar do amor costumam se alicerçarem em paradoxos e antíteses.

O retrato da mulher em Camões está subordinado a um ideal de beleza perene e universal. Apesar de ser ela também um ser imperfeito, nos poemas do escritor ela é espiritualizada, pois ele vê na figura da mulher a possibilidade de um reflexo do Amor absoluto a que tanto busca.

Em meio a essas reflexões, é possível notar que o amor é tratado pelo poeta como objeto de extensa reflexão, sendo submetido menos pelo sentir do que pelo pensar. Uma postura típica da época em que está inserido, período em que predomina a Razão e o conhecimento advindo do próprio homem.

Como exemplo dessa poesia, um dos mais belos e conhecidos poemas do escritor, no qual há uma tentativa angustiosa de conceituar o amor:

Amor é um fogo que arde sem se ver,
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?


  • O desconcerto do mundo:

Ainda sob influência do neoplatonismo, Camões contrapõe a perfeição do Mundo das Ideias à degradação e imperfeição do mundo terreno, que não corresponde aos anseios dos Valores ideais. Ao abordar essa temática, que também abrange os temas da “fugacidade do tempo” e do “inevitável envelhecimento do homem em contraposição à constante renovação da natureza”, Camões ultrapassa os modelos renascentistas de equilíbrio e linearidade, bem com o dogmatismo religioso português, aproximando-se do que mais tarde viria a ser a estética barroca.

No poema abaixo, o poeta fala da mutabilidade do tempo e do homem:

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se a confiança;
todo o mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
diferentes em tudo da esperança;
do mal ficam as mágoas na lembrança,
e do bem (se algum houve), as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
que já coberto foi de neve fria,
e, em mim, converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
outra mudança faz, de mor espanto,
que não se muda já como soía.
           
Já nesta redondilha, o eu-lírico critica, de forma levemente humorística, a justiça humana que, segundo ele, premia os maus e pune os bons:

Os bons vi sempre passar
no mundo graves tormentos;
e, para mais me espantar,
os maus vi sempre nadar
em mar de contentamentos.
cuidando alcançar assim
o bem tão mal ordenado,
fui mau, mas fui castigado,
Assim que só para mim
anda o mundo concertado...

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