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Classicismo


O Humanismo preparou terreno para o desenvolvimento de um período que se consagrou como um dos mais férteis da cultura ocidental: o Renascimento. A ruptura com o passado recente (o obscurantismo da Idade Média) é promovida por uma nova concepção de história, que vê na antiguidade clássica o momento de maior esplendor das civilizações. 

“A Primavera”, de Sandro Botticelli.
 
Na tela acima, de Botticelli, um dos grandes representantes da pintura renascentista, é possível notar algumas das principais ideias que fulguraram no classicismo, a influência da arte e mitologia greco-romana e o neoplatonismo. A primeira pode ser notada já na figura central da pintura: trata-se de Vênus, segundo a mitologia latina, a deusa do Amor e da Beleza (também chamada de Afrodite na mitologia grega). Já o neoplatonismo (oposição entre o espiritual – ideias – e o carnal – material), pode ser abstraído por meio da própria escolha da personagem principal. Os neoplatônicos consideravam a deusa Vênus de natureza dúbia: terrestre e celestial. Na primeira, a deusa configura-se como representação do amor humano, já na segunda, ela representa o amor universal, estabelecendo, até mesmo, uma relação com a Virgem Maria do cristianismo. Corrobora essa idéia o fato de que a figura de Vênus pintada por Botticelli assemelha-se muito com as representações que o mesmo pintor faz, em outras obras, da Virgem. Nota-se, ainda, que Vênus aparece vestida, como sinal de castidade.

Tal paralelo aponta para outra característica do período, o fusionismo, que consiste na revitalização da herança clássica combinada com o legado do cristianismo. Essa mesma fusão leva Camões a harmonizar as divindades pagãs com personagens bíblicas.

Nas artes plásticas, mais especificamente, a rigidez científica do classicismo é transposta, nas suas representações, por meio do desejo de retratar a realidade com precisão, sendo as figuras, apesar de idealizadas, anatomicamente corretas. A definição do espaço era alcançada por meio de técnicas de perspectiva, planos, elevações, sem, contudo, abrir mão da simetria e equilíbrio, projetando a pintura para ter o centro da tela como lugar de destaque. 

CARACTERÍSTICAS GERAIS:

  • Valorização dos aspectos culturais e filosóficos da cultura das antigas Grécia e Roma;
  • Influência do pensamento humanista: ao teocentrismo medieval, que concentrava a compreensão do mundo nas explicações religiosas, contrapõe-se o antropocentrismo, no qual o homem passa a ser, nas palavras de Protágoras, “a medida de todas as coisas”. Ao vencer os assombramentos da Natureza, o conhecimento científico, voltado para a realidade material, valoriza-se em detrimento do conhecimento abstrato da teologia.
  • Antropocentrismo: o homem como o centro do Universo;
  • Críticas às explicações e à visão de mundo pautada pela religião;
  • Racionalismo: valorização das explicações baseadas na ciência;
  • Busca do equilíbrio, rigor, harmonia e pureza formal;
  • Universalismo: abordagem de temas universais e apego a valores universais, como o Belo, o Bem, a Verdade, a Perfeição;
  • Associação da Beleza ao Bem, como ideal de perfeição estético e ético: o Bem é o Belo e o Belo é o Bem;
  • Verossimilhança: o Belo é o racional, o verdadeiro, e o verdadeiro é o natural. Daí a valorização da Natureza e sua imitação artística.
  • Fusionismo: fusão do racionalismo e paganismo com a tradição judaico-cristã.


RENASCIMENTO EM PORTUGAL:

Contexto:

Em Portugal, o Renascimento corresponde ao período de maior apogeu da nação. No reinado de D. Manuel, grandes feitos foram alcançados: a descoberta do caminho marítimo para as Índias em 1498, o descobrimento do Brasil em 1500, a conquista de Goa e de regiões da África entre 1507 e 1513 e a Viagem de Circunavegação entre 1519 e 1520. A excepcional prosperidade econômica leva Portugal a um período de intensa, porém momentânea, euforia. Todo o ufanismo da nação luza entra em declínio até a derrocada final na batalha de Alcácer-Quibir, em 1578, quando morre D. Sebastião e o exército português é derrotado.

Na nação lusa o Renascimento não se desenvolveu com a mesma liberdade e intensidade dos países protestantes, nestes houve uma revolução cultural mais extensa e profunda. Em Portugal, assim como na Espanha e Itália, a Contrarreforma Católica instaurou um período de recalque ideológico e de repressão. O Santo Ofício, em 1547, entrava nas casas à procura de livros considerados heréticos pela Igreja. Gil Vicente, Camões, Sá de Miranda, Antônio Ferreira, entre outros, foram considerados “agentes contra a fé e os costumes”.

Escola Clássica Portuguesa:

Em Portugal, o estilo renascentista por excelência só apareceu a partir de 1527, quando Sá de Miranda regressa da Itália, onde esteve em contato com a Renascença italiana, e passa a divulgar no território português as modalidades poéticas clássicas, procedimentos estéticos que foram chamados de “medida nova”. Esta consiste, além da utilização de versos decassílabos, na adoção de várias formas fixas, assimiladas dos modelos gregos, latinos e italianos mais recentes. Entre essas formas fixas, as que circularam entre os artistas portugueses são:

  • Soneto: poema composto por 14 versos distribuídos em 4 estrofes, dois quartetos e dois tercetos. Quanto à métrica e à rima, são usadas de formas variadas.
  • Terceto: composição em estrofes de 3 versos com rima entrecruzada (ABA – BCB – CDC – DED etc). Curiosidade: “A Divina Comédia”, de Dante Alighieri, é toda escrita em tercetos.
  • Sextina: poema de 6 estrofes de 6 versos (sextilha) arrematado por um terceto.
  • Oitava: também chamada de “oitava heroica”, “oitava real” e “oitava rima”, designa o poema ou estrofe compostos por 8 versos decassílabos, dispostos no seguinte esquema de rima: ABABABCC. Curiosidade: “Os Lusíadas”, de Camões, é composto por 1102 oitavas.
  • Ode: poema destinado ao canto de tom heroico e eloquente.
  • Elegia: na antiguidade, canto plangente em honra aos mortos, modernamente versa também sobre sentimentos dolorosos despertados pela morte, perda ou ausência, incorporando a ideia de lamento ou pranto.
  • Canção: trata-se, em geral, de um poema destinado ao canto. Dante, Petrarca e Camões, compuseram canções formadas por uma série de estrofes de número regular de versos, arrematadas por uma estrofe menor, que condensava o sentido das anteriores ou uma dedicatória à bem-amada.
  • Égloga ou écloga: composição de tema pastoril e campestre em forma dialogada.
  • Epístola: em poesia, a composição poética de linguagem próxima ao cotidiano destinada a um amigo ou mecenas e tratando de variados assuntos.
  • Epigrama: composição poética breve, condensada, na qual se expressa com precisão e engenhosidade um só pensamento principal, este, normalmente, de caráter festivo, satírico ou picante.
  • Epitalâmio: poema ou canto em louvor dos que contraem núpcias.
  • Epicédio: uma variante da elegia, destinava-se, na antiguidade grega, ao canto de lástima nos funerais com o corpo presente. Modernamente o termo passou a ser empregado para designar qualquer composição poética feita em memória de um morto ilustre.

Ø  Teatro: afasta-se das formas medievais do auto e da farsa e retoma o teatro clássico, reabilitando a tragédia e a comédia, tal como as concebiam os gregos, dentro da Lei das Três Unidades.

*Contudo, apesar da introdução das novas formas, em Portugal, o espírito medieval não foi totalmente abandonado. Por isso, o Classicismo português constituiu uma época bifronte, pela simultânea influência da cultura medieval e da clássica. Na poesia, a medida nova não substitui a velha, pois ambas eram praticadas pelos poetas. Sendo assim, em Portugal não houve um Renascentismo típico, o que pode ser explicado pelo fato de que lá o catolicismo e o poder eclesiástico prevaleceram, fazendo com que o racionalismo e a ideologia burguesa não alcançassem a expressividade gozada em outros países.

Autores: Bernadim Ribeiro, Cristóvão Falcão, Sá de Miranda, Antônio Ferreira, João de Barros, Fernão Lopes de Castanheda, Diogo de Couto, Fernão Mendes Pinto e Luís Vaz de Camões.

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