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Humanismo I


Surgimento e contexto histórico:

O Humanismo ou pré-renascimento é a denominação de um movimento intelectual que se iniciou na Itália, tendo como principal característica a valorização do homem, buscada por meio de um retorno à antiguidade greco-romana, reatando, assim, os laços entre a cultura moderna e a antiga. O período é de transição entre a visão medieval e a visão renascentista, entre o teocentrismo e antropocentrismo.

Historicamente o período é de grandes transformações sociais: solidificação do comércio, aparecimento da burguesia e das cidades, alianças entre o rei e a burguesia para a formação das monarquias nacionais e do absolutismo, invenção da imprensa por Gutenberg, divulgação da cultura clássica e grandes navegações.

O homem desse período identifica-se com o racionalismo, com a ciência e com o ideal burguês do lucro e da prosperidade. Mas, mesmo abalado pela guerra (Guerra dos Cem Anos), pela peste (Peste Negra) e por crises internas da Igreja, o feudalismo não desapareceu repentinamente. O Humanismo português é marcado pela intersecção e bifrontismo de ideais, conservando traços medievais e teocêntricos num cenário de antecipação do renascimento.

Contexto português:

Com a morte de D. Fernando, assume, provisoriamente, o trono português sua mulher, D. Leonor Teles, até que a infanta D. Beatriz tivesse um filho varão. A nova regente, de naturalidade espanhola, realiza um governo dúbio, pois, em conluio com o Conde de Andeiro, seu patrício, tinha o intuito de anexar Portugal ao trono espanhol, o que divergia dos interesses autonomistas de parte da nobreza lusitana e dos grandes burgueses. Estes escolheram como líder D. João, filho bastardo de D. Pedro I e Mestre da Ordem Militar de Avis.

O povo foi mobilizado por um jovem nobre, Nuno Álvares Pereira, a favor do Mestre de Avis. O Conde de Andeiro é condenado à morte e há grande agitação popular. D. João é proclamado rei, tornando-se D. João I. A guerra trouxe como principal conseqüência a queda da Dinastia de Borgonha e da nobreza feudal e a ascensão da Dinastia de Avis, aliada à burguesia mercantilista.

Em seu reinado, D. João I investe no desenvolvimento das Letras, o que desencadeia significativa renovação cultural em Portugal. Seu filho, D. Duarte, em continuação ao reinado do pai, nomeia Fernão Lopes Guarda-Mor da Torre do Tombo, em 1418, sendo este também nomeado, em 1434, Cronista-Mor do Reino, fatos que foram considerados marcos iniciais do Humanismo em Portugal.

O apogeu desse movimento deu-se nos reinados de D. Afonso V, D. João III e D. Manuel, pois o palácio se torna o centro das decisões políticas, econômicas e das atividades culturais, visto que estava oficializado o mecenatismo, ou seja, os reis eram os mecenas, ou patrocinadores, das ciências e das artes. Essa mesma época também é marcada pelo apogeu das Grandes Navegações.
           
Poesia palaciana:

Poesia do Humanismo português que começa a ser realizada por volta de 1400 (quatrocentismo) e que se destinava ao entretenimento nos serões do palácio real, por isso o nome “palaciana”. Grande parte da poesia dessa época, compreendendo o reinado de D. João II e D. Manoel, foi recolhida e agrupada em um livro de título “Cancioneiro Geral” por Garcia de Resende, inspirado pelas coletâneas espanholas “Cancioneiro de Baena” (1445), compilado por Juan Alfonso de Baena, e “Cancionero General” (1511), agrupado por Hernando del Castillo. A influência espanhola explica o fato de haver entre a mil composições do livro 150 escritas em castelhano.

Uma das características mais relevantes da poesia do período quatrocentista é que ela operou o divórcio entre a letra e a música (casamento obrigatório no trovadorismo). A poesia desliga-se, assim, dos acompanhamentos musicais para ser composta para uma leitura silenciosa e solitária ou para declamação coletiva, ganhando, assim, liberdade e formas próprias, pois o ritmo agora deveria vir dos recursos próprios das palavras, dispostas em versos e estrofes, e não obedecendo a uma pauta musical. O termo “trovador” passa a ter uma conotação pejorativa, designando um poeta de recursos poéticos limitados, surgindo, portanto, em substituição, a figura do “poeta”, tal como é concebida nos dias de hoje.

Sendo a palavra separada da melodia, alguns poetas, entendendo que bastava juntar palavras, produziram poemas sem relevo algum. Mas outros compreenderam e encontraram o ritmo e expressividade próprios da linguagem e nos deixaram obra perdurável. Dessa forma, a coletânea de Garcia de Resende contém muitos poemas medíocres que, no entanto, não apagam o brilho de outros tantos bons representantes da lírica portuguesa. Um desses poemas que merecem referência é o “Cantiga sua partindo-se”, de João Ruiz de Castelo-Branco, clássico exemplo da poesia lírica do período: 


Senhora, partem tão tristes
meus olhos por vós, meu bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.

Tão tristes, tão saudosos,
tão doentes da partida,
tão cansados, tão chorosos.
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida
Partem tão tristes os tristes,
tão fora d’esperar bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém

Novidades formais da poesia quatrocentista:

A nova forma de fazer poesia inspirou nos poetas novas técnicas e estruturas poéticas, tais como a:

a)    Vilancete – formado por um mote de 2 ou 3 versos seguido de glosas, ou seja, estrofes em que o poeta retomava e desenvolvia as idéias contidas no mote.
b)    Cantiga – formada por um mote de 4 ou 5 versos e por uma glosa de 8 ou 10 versos. Reservava-se, quase sempre, aos temas amorosos.
c)    Esparsa – composta de uma única estrofe de 8 a 16 versos. Vinda da Provença, destinava-se a comunicar sentimentos de tristeza e melancolia.
d)    Trova – composição de forma livre, com número variável de estrofes, sendo predominantes as de 4 versos (quadras ou quartetos) e as de 8 versos (oitavas). Foi utilizada tanto em longos poemas narrativos como em curtos de intensão satírica ou zombeteira ou, ainda, sob a forma de debates políticos sobre variados temas.

Vale lembrar também que o “Cancioneiro Geral” difundiu o verso redondilho (redondilho menor, 5 sílabas métricas; redondilho maior, 7  sílabas métricas), antes pouco apreciado.

Novidades temáticas:

·         As poesias compiladas no “Cancioneiro Geral” tiveram por um lado a influência clássica (de Ovídio) e por outro lado a influência italiana (de Dante e Petrarca) e espanhola (de Marquês de Santillana, Juan de Mena, Gómez Manrique, Jorge Manrique);
·         Tentativas de poesia épica (a preparar o terreno para Camões);
·         Poesia religiosa;
·         Poesia satírica (algumas vezes com grosseria, outras com fina ironia);
·         Poesia dramática, para ser encenada em pequenos quadros;

Mas o ponto mais alto da coletânea de Garcia de Resende é o lirismo amoroso. A poesia lírica retoma a tradição trovadoresca do amor-sofrimento, da súplica mortal, enriquecida pelas influências de Petrarca na introspecção sentimental e análise das contradições do amor. A mulher, porém, deixa de ser tida como uma transcendência para ser carnalizada, adquirindo graças físicas e sensoriais, que a maioria dos trovadores não ousava revelar.

Entre os principais poetas do “Cancioneiro Geral” estão Garcia de Resende, João Ruiz de Castelo Branco, Nuno Pereira, Fernão da Silveira, Conde Vimioso, Aires Teles, Diogo Brandão e Gil Vicente (apesar de ser consagrado como dramaturgo, também explorou o terreno da poesia, sendo que sua obra teatral freqüentemente dialoga com ela).

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