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Padre Antonio Vieira

VIDA: Nascido em Lisboa, em 1608, Vieira muda-se com a família para o Brasil aos seis anos de idade e ingressa no colégio jesuítico da Bahia. Em 1623, entra para a Companhia de Jesus, sendo reconhecido como exímio orador. Sua fama também se deve ao seu envolvimento em questões políticas, como a guerra contra a invasão holandesa na Bahia, a respeito da qual compôs o Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as da Holanda (1640), uma de suas principais obras. Reconquistada a independência de Portugal, em dezembro de 1640, volta para a metrópole para prestar lealdade ao novo rei e inicia sua carreira diplomática. 

Por defender os cristãos-novos (judeus convertidos), ganhou a desconfiança e ódio do Santo Ofício. Em 1652, volta ao Brasil a fim de liderar missões de catequese no Maranhão. Defensor dos índios e dos escravos e denunciando os desmandos de colonos e administradores, gerou conflitos e resistências, a ponto dos colonos se rebelarem contra ele. 

Vieira deixa, então, os problemas políticos do Brasil e volta desterrado para Portugal, em 1661. Mas, com a morte de Dom Sebastião (cinco anos antes), Vieira perdera seu principal protetor, sendo humilhado como réu do Tribunal do Santo Ofício, que o acusava de heresia por propagar ideias de fundo sebastianista. Mas, no fundo mesmo, o que os inquisidores não perdoavam era seu posicionamento a favor dos cristãos-novos.  Sua habilidade diplomática e seu talento em lidar com as palavras serviram na negociação pela sua liberdade. Em 1681, volta a Salvador e, sem abandonar a atividade de pregador, passa seus últimos anos dedicando-se a preparar sua obra de mais de 200 sermões, mais de 500 cartas e obras proféticas. Faleceu no dia 19 de julho de 1697.



O PREGADOR E A DIALÉTICA CONCEPTISTA:

O Padre Antonio Vieira valeu-se do estilo conceptista do Barroco, voltando-se para a argumentação e raciocínio lógicos e criticando duramente os adeptos do estilo cultista, como podemos ver neste trecho do Sermão da Sexagésima:

“(...) Será porventura o estilo que hoje se usa nos púlpitos? Um estilo tão empeçado, um estilo tão dificultoso, um estilo tão afetado , um estilo tão encontrado  toda a arte e a toda a natureza? Boa razão é também essa. O estilo há de ser muito fácil e muito natural. Por isso Cristo comparou o pregar ao semear. (...) Não fez Deus o céu em xadrez de estrelas, como os pregadores fazem o sermão em xadrez de palavras. Se uma parte está branco, da outra há de estar negro (...). Basta que não havemos de ver um sermão de duas palavras em paz? Todas hão de estar sempre em fronteira com o seu contrário? (...) Como hão de ser as palavras? Como as estrelas. As estrelas são muito distintas e muito claras. Assim há de ser o estilo da pregação, muito distinto e muito claro.”


Vieira ataca os pregadores conceptistas argumentando que a não eficácia de seus sermões estava no estilo pomposo e de difícil acesso devido aos exageros da ornamentação e do abuso das figuras de linguagem. Para o orador, tamanho rebuscamento fazia com que o sermão, tão preocupado com a suntuosidade lingüística e estilística, perdesse no conteúdo, distanciando-se dos reais objetivos de uma pregação.

O que parece contraditório no argumento de Vieira é que ele utilizava, em seus escritos, justamente os recursos lingüísticos que criticava nos cultistas. Mas, essa aparente incoerência é desconsiderada se efetuarmos uma análise mais profunda. O que o pregador criticava era o abuso da ornamentação, rica na forma, mas vazia no conteúdo. Sua crítica dirigia-se, portanto, ao virtuosismo puro, à palavra pela palavra, ao discurso separado da ação. O que notamos nos sermões de Vieira é que a palavra estava sempre a serviço de uma moral, de um ensinamento, sendo usada em todas as suas facetas para convencer, insuflar os ouvintes a uma mudança de atitude, que podia ser tanto externa, questões políticas e religiosas, como interna, mudanças espirituais.

Dessa questão podemos perceber que Vieira era um homem preocupado com os problemas de sua época, tanto sociais como religiosos. Partindo sempre de um fato real, cotidiano, chamava o ouvinte para o seu dever de pensar e de reagir, valendo-se de um eletrizante processo de convencer e despertar consciências. Para conseguir este efeito, utilizava-se de alguns aspectos formais que discutiremos logo abaixo.

Características formais:

No Sermão da Sexagésima, uma “espécie de profissão de fé da oratória conceptista”, nas palavras de Massaud Moisés, Vieira expõe a maneira como estrutura seus sermões. Primeiro era necessário definir a matéria, o tema abordado; em segundo lugar deveria repartir a matéria; depois, esta matéria deveria ser confirmada com a Escritura, em seguida, com a razão; no próximo passo, ela deveria ser amplificada por meio de exemplos e respostas às supostas objeções; e, por fim, viria a conclusão, que deveria surgir como que naturalmente, desencadeada pelas premissas.

Essa estrutura segue a tradição clássica da divisão em cinco partes: 1. Tema: o padre sempre inicia seus sermões com uma citação bíblica que lhe serve de tese e que é constantemente retomada ao longo da pregação; 2. Introito: há uma exposição geral do sermão, antecipando os temas desenvolvidos e definindo os termos essenciais utilizados na argumentação; 3. Invocação: o pregador pede inspiração divida ou à Virgem Maria; 4. Argumentação: o orador busca respaldo para a sua tese nas Escrituras, em obras teológicas de doutores e nas encíclicas papais, valendo-se dos recursos da lógica e da estilística para traçar seu raciocínio. Também se utiliza do método parenético, que consiste em pensar em todas as possibilidades de contestação do seu argumento para antecipar-se nas respostas, desarmando possíveis objeções; 5. Peroração ou epílogo: neste momento, o pregador faz sua conclusão, exortando a pertinência e verdade da pregação.

Além da divisão em cinco partes, outras características são herança clássica, tais como, unidade do assunto e a circularidade do desenvolvimento (as premissas iniciais são retomadas exaustivamente no decorrer dos sermões).

No estilo de Vieira, destacam-se, ainda, a naturalidade com que ele alterna uma linguagem mais elaborada com a descontração marcada pela oralidade, já que o padre prezava por ser entendido. Seu raciocínio, pautado numa lógica silogística, é muito bem articulado e amarrado, já que o desejo é o de não deixar brechas para objeções.

Segundo o crítico Massaud Moisés, Vieira “tornou-se verdadeiro modelo de purismo de linguagem e fonte de conhecimento dum conjunto de expressões que pôs em uso, adaptou ou fixou pela primeira vez. Representa, assim, o melhor do Barroco português”.   

Seus principais sermões são: Sermão da Sexagésima, Sermão de Santo Antonio aos Peixes, Sermão da Primeira Dominga da Quaresma, Sermão XIV do Rosário, Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as de Holanda, Sermão do Bom Ladrão.

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