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Barroco Brasileiro: Gregório de Matos



“Cristo do Passo da Cruz-às-costas”, de Aleijadinho


Barroco brasileiro:

O Barroco só veio a alcançar sua plenitude no Brasil a partir do séc. XVIII, perdurando até meados do séc. XIX. Trazido à colônia pelos jesuítas, com intuito didático e moral, estava, em princípio, associado à Igreja. Mas depois, foi libertando-se da influência européia e assumindo características próprias, sendo, por isso, considerado pela crítica o primeiro estilo artístico e literário do Brasil, embora ainda frágil, preso aos modelos portugueses e a uma elite muito pequena.
            Nas artes plásticas, concentrou-se em Minas Gerais, onde havia riqueza e maior desenvolvimento. Seu maior representante e responsável pelo ápice do Barro no Brasil foi Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho.
            Na literatura, a figura mais emblemática, responsável pelas primeiras manifestações de abrasileiramento da nossa literatura foi o poeta baiano Gregório de Matos, também conhecido, pela sua polêmica obra, como “Boca do Inferno”.
            Outros escritores menores da época são: Bento Teixeira e Botelho de Oliveira.

Marco inicial do Barroco no Brasil: 1601, com Prosopopeia, de Bento Teixeira.
Término: 1768, com Obras Poéticas, de Cláudio Manuel da Costa, marco inicial do Arcadismo.


Gregório de Matos:

            Nascido na Bahia, de família rica, começou seus estudos com os jesuítas e posteriormente foi à metrópole para estudar direito na faculdade de Coimbra. Casou e foi magistrado, até que ficou viúvo e voltou ao Brasil, na Bahia, onde levou uma vida boêmia, improvisando seus versos, estes nem sempre agradáveis a todos.
            A forte influência de Gôngora e Quevedo (o poeta chegou a transcrever para a língua portuguesa esquemas poéticos destes) em sua obra levanta questionamentos por parte de alguns críticos quanto à originalidade atribuída a Gregório. Porém, deve-se levar em conta neste julgamento que naquela época as interferências, intertextualidades e adaptações eram vista como uma homenagem ao outro autor, sendo que a imitação não tinha o valor negativo que assume a partir do Romantismo. Por outro lado, soma-se ainda à defesa da criação do poeta o fato de que ele incorporou aos seus poemas coloquialismos, gírias, tupinismos, africanismos e expressões típicas da época, consagrando-se como o primeiro escritor a fazer um retrato de sua terra e de sua gente.
            A obra poética de Gregório de Matos permaneceu inédita durante toda a sua vida, sendo organizada postumamente a partir de cópias manuscritas que circulavam entre o povo e por via oral, já que muitos decoravam os poemas. Por não ter deixado registro do que escrevia, muito se perdeu dos poemas deste autor, e muitos dos que se atribuiu a ele não lhes pertenciam de fato. De sua obra, não temos nem uma edição crítica, e nas organizações de poemas os textos variam de edição para edição.
            A Academia Brasileira de Letras fez editar, em 1923, uma suposta Obra Completa sob responsabilidade de Afrânio Peixoto.
            Gregório escreveu poesia sacra, amorosa, encomiástica, filosófica e satírica.

Poesia sacra: Expressa a insignificância do homem perante Deus, a consciência do pecado e a busca do perdão. Mas o tema religioso também foi muito usado apenas como pretexto para o exercício poético. Exemplo: “Esta razão me obriga a confiar, / Que, por mais que pequei, neste conflito / Espero em vosso amor de me salvar.” (“A Cristo N.S. crucificado, estando o poeta na última hora de sua vida”).

Poesia amorosa: Conflito entre carne e espírito. Oscila entre a atitude contemplativa do amor elevado, sublime (à maneira de Camões) e a obscenidade do amor carnal. Na primeira postura, o poeta fala de um amor platônico por uma moça branca, de condição social elevada, mas se vale da segunda atitude, libertando a libido e erotismo, de maneira até mesmo agressiva, quando a sua musa é uma mulher de condição social inferior, notadamente as mulatas (muito presentes, por sinal, na obra do escritor). Exemplo 1: “Anjo no nome, Angélica na cara! / Isso é ser flor e Anjo juntamente: / Ser Angélica flor e Anjo florente, / Em quem, senão em vós, se uniformara?” (“A D. Ângela”). Exemplo 2: “Minha rica mulatinha, / (...) / se acaso minha quês ser, / que todo me hei de acender / em ser teu amante fino / pois por ti já perco o tino, / e ando para morrer.” (“À mesma mulata mandando ao poeta um passarinho”).

Poesia encomiástica: São poesias de elogio, de circunstância (festas, homenagens, etc). Exemplo: “Douto, prudente, nobre, humano, afável. / Reto, ciente, benigno e aprazível. / Único, singular, raro, inflexível. / Magnífico, preclaro, incomparável.” (Ao desembargador Belchior da Cunha Brochado).

Poesia filosófica: Caracterizada por certo pessimismo e angústia, aborda os temas do desconcerto do mundo, da fugacidade do tempo e da incerteza da vida, pautando-se ainda nas contradições do espírito. Exemplo: "Porém, se acaba o Sol, por que nascia? / Se tão formosa a Luz é, por que não dura? / Como a beleza assim se transfigura? / Como o gosto da pena assim se fia?" (“Inconstância das coisas do mundo”).

Poesia satírica: Parte mais original de sua obra, rendeu-lhe a alcunha de “Boca do Inferno”, pois sua língua ferina não poupava a ninguém: criticou a incapacidade dos administradores portugueses e brasileiros, o clero, a corrupção e o relaxamento dos costumes, comerciantes, negros, brancos, mulatos, índios. Seus dois alvos principais eram a degradação moral na Bahia e os caramurus (primeiros colonos nascidos no Brasil). Gregório também não poupava o uso de palavrões na sua linguagem. Exemplo 1: descrição do governador Câmara Coutinho: Nariz de embono / com tal sacada, / que entra na escada / duas horas primeiro / que seu dono.”. Exemplo 2: sobre a cidade da Bahia: “Senhora Dona Bahia, / nobre e opulenta cidade, / madrasta dos naturais, / e dos estrangeiros madre.”.   Exemplo 3: sobre o relaxamento dos costumes na Bahia: “Que falta nesta cidade?... Verdade. / Que mais por sua desonra?... Honra. / Falta mais que se lhe ponha?... Vergonha. / [...] / O demo a viver se exponha, / Por mais que a fama a exalta, / Numa cidade onde falta / Verdade, honra, vergonha.”.

CURIOSIDADE: O soneto “Triste Bahia”, de Gregório de Matos, já foi musicado por Caetano Veloso (disco “Transa”). Nele o poeta compara-se com a decadência de sua cidade, identificando-se com ela.

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