Pesquisar este blog

Carregando...

Memória de um Sargento de Milícias - Manuel Antônio de Almeida


O romance Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida, foi publicado entre junho de 1852 e julho de 1853 no Correio Mercantil do Rio de Janeiro, em forma de folhetins, e editado em livro entre 1854 e 1855.

Tido pela crítica como romance extemporâneo (está situado no Romantismo mas apresenta fortes características do Realismo, além de ser considerado também um precursor das ideias modernistas de “arte brasileira”), foi merecedor de importantes apreciações críticas que o consideraram a princípio: romance de costumes e, posteriormente, romance picaresco. Mas foi com o crítico Antônio Cândido que ganhou uma análise decisiva. É à luz dessa análise que apresentaremos o romance, elaborando um pequeno resumo das principais questões levantadas pelo crítico.

Romance picaresco? Cândido posiciona-se contra essa denominação, dizendo que não foi dessa fonte que Manuel Antônio de Almeida foi beber. Mas o que seria o pícaro? Um personagem que surgiu na literatura espanhola entre os séculos XVI e XVII, mas que já encontrava representações na antiguidade. De origem humilde, o pícaro é um personagem que foi abandonado no mundo e que, em busca do seu sustento, passou a se valer de meios não lícitos e imorais para sobreviver, roubando e mentindo. Por outro lado, trata-se de um personagem geralmente ingênuo, que se torna esperto e sem escrúpulos graças às asperidades da vida. É por esses meios que o pícaro vai se movendo na sociedade, conhecendo-a em seu conjunto. Mas esse personagem sempre termina desiludido, mais miserável do que nunca.
Leonardinho seria um pícaro? Em primeiro lugar, o pícaro é quem conta a sua história, sendo o romance, portanto, narrado em 1.ª pessoa. Mas o romance brasileiro é narrado em 3.ª pessoa, por um narrador que não fixa seu olhar apenas no protagonista, mas varia seu ângulo de visão para outros núcleos da história. Assim como o pícaro, Leonardo Filho é de origem humilde e irregular (“filho de uma pisadela e um beliscão”), largado no mundo sim, mas não abandonado, pois logo que é deixado pelos pais já ganha um padrinho, troca nada má para Leonardinho. Em segundo lugar, o nosso protagonista não é nada ingênuo e também não se tornou malandro devido ao mau destino, pelo contrário, nasce malandro feito. Em terceiro, a condição humildemente servil do pícaro passa longe de Leonardo Filho que, sempre protegido pelo padrinho e pela comadre, não sofre graves problemas de subsistência. Por fim, ao contrário do pícaro, nosso heroi (ou anti-heroi) nada aprende com as experiências vividas e no final ainda se dá bem, sendo promovido de cargo.

Seria Leonardo uma espécie de malandro? Como vimos, Cândido rejeita a ideia de Leonardo Filho ser um pícaro, aos moldes do romance espanhol. Sendo assim, o crítico considera-o um malandro, “o primeiro e grande malandro que entra na novelística brasileira, vindo de uma tradição quase folclórica e correspondendo, mais do que se costuma dizer, a certa atmosfera cômica e popularesca de seu tempo, no Brasil” (CÂNDIDO, 1970). O malandro seria um tipo de aventureiro astucioso que, assim como Leonardo, pratica a astúcia pela astúcia, diferentemente do pícaro que a pratica visando sempre um proveito. O nosso malandro é malandro por gosto (nasceu malandro) e visa sempre o bem próprio, não se preocupando se os meios de que se vale para isso são imorais ou ilícitos. Pode-se dizer então que nosso heroi é antes uma espécie de “anti-heroi”, aos moldes dos astuciosos das historias populares. Essa origem folclórica já fica bem clara logo no começo do romance, que é introduzido com uma frase padrão dos “contos da carochinha”: “Em no tempo do Rei...”.

Um romance documental? Cândido refuta a ideia de que Memórias de um sargento de milícias seja um romance documental, pois ele não traça um panorama amplo da sociedade carioca do início do século XIX, restringindo-se apenas à área central do Rio de Janeiro; apenas uma ou duas vezes o autor nos leva ao subúrbio. Além disso, pode-se dizer que, de um modo geral, a ação limita-se socialmente a um tipo de gente, que hoje chamaríamos de pequena burguesia. Importante notar que o romance “ignora” tanto as camadas sociais dirigentes (rei, ministros, etc.), quanto as camadas básicas, por exemplo, os escravos, que eram a base econômica da sociedade da época. Seria, portanto, complicado afirmar que esse romance é documental, porque ele é muito restrito.

Ao invés disso, parece de grande interesse notar que o elemento documental, ou seja, de descrição de festas e de costumes, na obra de Almeida, tem como função dar uma maior verossimilhança ao romance. Nesse sentido, é necessário retomar a ideias de que a narrativa de Almeida é composta por dois planos que se interpenetram: um mais universal, que faz uso de elementos de cunho popular, como os arquétipos, que nos remontam à lenda, ao intemporal; e outro que se liga à representação de uma sociedade concreta, historicamente delimitada. Para Cândido, quanto melhor se dá a combinação entre esses dois planos, melhor se torna esse romance. Ainda segundo o crítico, a representação dessa sociedade concreta se dá, no livro, por meio de uma percepção intuitiva profunda que Almeida teria dessa sociedade como um todo, percepção esta que se organiza em torno do que ele chama de dialética da ordem e da desordem.

Os personagens oscilam entre dois extremos da sociedade: em um dos pólos (positivo), a ordem; no outro (negativo), a desordem. O protagonista cresce passando ora por um ora por outro hemisfério, terminando absolvido pelo pólo convencionalmente positivo. Leonardo pai, como oficial de justiça, pertence à ordem; contudo, sua relação com a Cigana leva-o a praticar feitiçarias e ser preso pelo Major Vidigal. Posteriormente, forma com a filha da comadre um casamento estável, retomando sua posição relativamente sancionada.

Este transitar por entre a ordem e a desordem é comum entre os personagens de Memórias de um sargento de milícias, dos quais os citados são só exemplos. Essa característica leva-nos a uma sociedade na qual predomina a lógica da inculpabilidade, que Cândido denominou em seu ensaio de mundo sem culpa. Para o crítico, o romance de Almeida cria “um universo que parece liberto do erro e do pecado”. Os personagens fazem coisas tidas como reprováveis, mas também fazem outras dignas de louvor, que as compensariam. Desta forma, “como todos têm defeitos, ninguém merece censura”.

A sociedade apresentada no romance estaria alicerçada por uma espécie de equilíbrio entre o bem e o mal, que são compensados um pelo outro a cada instante. Para terminar com as palavras de Antônio Cândido, no romance de Almeida “decorre a idéia de simetria ou equivalência, que, numa sociedade meio caótica, restabelece incessantemente a posição por assim dizer normal de cada personagem. Os extremos se anulam e a moral dos fatos é tão equilibrada quanto as relações dos homens” (CÂNDIDO, 1970).


Bibliografia:

CÂNDIDO, A. Dialética da Malandragem: caracterização das Memórias de um sargento de milícias. In: Revista do Instituto de estudos brasileiros, nº 8, São Paulo, USP, 1970, pp. 67-89.

*O ensaio de Antônio Cândido está disponível no site: HTTP://www.unioeste.br/prppg/mestrados/letras/leitura/DIALETICA_MALANDRAGEM.rtf

Nenhum comentário:

Postar um comentário