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Basílio da Gama

Nascido em 1741, na cidade de São José do Rio das Mortes (hoje Tiradentes-MG), José Basílio da Gama estudou no colégio dos jesuítas do Rio de Janeiro. Mas, em 1759, o Marquês de Pombal expulsa a Companhia de Jesus do Brasil. Mais tarde Basílio consegue ir para Roma, onde ingressa na Arcádia Romana, adotando o pseudônimo pastoril de Termindo Sipílio. Em 1768, em Lisboa, foi detido pelo Marquês de Pombal acusado de partidário dos jesuítas. Livrou-se do degredo na Angola graças a um poema nupcial que escreveu para a filha do Marquês e que lhe rendeu, ainda, a proteção de Pombal. Em 1769, publica sua mais importante obra O Uruguai, poemeto épico em que louva a administração pombalina e critica os jesuítas.

O URUGUAI:

“(...) e todos sabem
Que estas terras, que pisas, o céu livres
Deu aos nossos avôs; nós também livres
As recebemos dos antepassados.
Livres as hão de herdar os nossos filhos.”
(Canto Segundo, fala do índio Sepé)

A obra retrata a guerra travada por portugueses e espanhóis contra índios e jesuítas pela conquista da Colônia de Sete Povos das Missões, na região do Uruguai. Como ficou estabelecido no Tratado de Madri, as terras do Uruguai ocupadas pelos jesuítas deveriam passar da Espanha para Portugal, ficando este com Sete Povos das Missões e aquela com a Colônia do Sacramento. Os índios que habitavam Sete Povos, dirigidos pelos jesuítas, ofereceram resistência às pretensões portuguesas, iniciando o conflito. O poema exalta os feitos do General Gomes Freire de Andrade e combate abertamente os jesuítas, dedicando o livro ao irmão do Marquês de Pombal.

            Características:

  • Epopéia: apesar de adotar a forma clássica da epopéia, Basílio não respeita a estrutura tradicional integralmente. Contrariando o esquema camoniano, o autor divide o seu poema em cinco cantos ao invés de dez. Mas isso não impede que se possa dividi-lo em proposição, invocação, dedicatória, narrativa e epílogo (como nos moldes clássicos). Outro ponto inovador, que dá um toque individual e autônomo à obra, é o fato de o poema não ser divido em estrofes e ser composto em decassílabos brancos, abrindo mão da rima. Ademais, Basílio da Gama substitui a mitologia greco-romana pela mitologia indígena, o que representa um primeiro passo para a construção do nacionalismo.
*Antônio Cândido afirma que é um erro classificar O Uruguai como epopéia, já que se trata de um poema lírico, heróico e didático, além de ter assunto reduzido e atual (quebrando a distância épica) e ter a presença da sátira e do burlesco. O que seria, então, O Uruguai? O crítico resume: “um poema narrativo de assunto entre épico e político, banhado por um lirismo terno ou heróico que permite ver com simpatia a vida do índio brasileiro” (1977, p. 172). Já os defensores da epicidade do poema propõem revisões do conceito de épica e de epopéia.

  • Inovação cronológica: o poema inicia-s em ex-abrupto, ou seja, em plena ação, partindo de uma descrição do final da batalha que é narrada ao longo dos versos. Sobre isso escreveu José Veríssimo (1954): “[…] Não se parece o Uruguai com qualquer outro poema do tempo. Desvia-se do trilho costumeiro da poética em vigor. Não começa pela invocação, antes entra ex-abrupto na matéria do poema, o que era absolutamente novo.”

  • Combate aos jesuítas e louvor à Pombal: a intenção política que move o poeta a compor O Uruguai é a de homenagear o Marquês de Pombal (protetor de Basílio e responsável por este ter se livrado do degredo) e repudiar os jesuítas (perseguidos por Pombal): (...) Vós sois rebeldes,/ Se não obedeceis; mas os rebeldes,/ Eu sei que não sois vós, são os bons padres,/ Que vos dizem a todos que sois livres,/ E se servem de vós como de escravos.”. Contudo, no tocante a este ponto, o poema se torna laudatório e literariamente desinteressante, e o que seria apenas o pano de fundo das motivações políticas de Basílio destaca-se como uma das maiores virtudes de sua epopéia: o choque entre as culturas.

  • Choque entre culturas: Para o crítico Antônio Cândido (1977), o maior mérito de Basílio foi ter abordado o diálogo entre as culturas indígena e européia do ângulo americano, identificando-se com a realidade física da terra e do índio. Para o estudioso, o autor ultrapassou as limitações dos intuitos de sua campanha antijesuítica, transformando-os em significados próprios, propagadores do peso e valores do “mundo natural”, ignorados pela ambição européia.

  • Simpatia pelo índio: a simpatia de Basílio pelos nativos do “Novo Mundo” confirma-se pela descrição do caráter heróico destes na luta contra os invasores de suas terras. Dessa forma, o índio supera no espírito o guerreiro português, que era para ser exaltado, e os jesuítas, que era preciso desmoralizar. O ser natural, “filho da própria natureza”, desponta como elemento mais sugestivo do ponto de vista estético. Basílio consegue encontrar na colônia um equivalente próprio para o bucolismo do Arcadismo: o ideal do “bom selvagem”, do homem da terra, porém, ser cair no lugar comum do movimento árcade. Devido a esse olhar lançado para a terra e para o índio, a obra de Basílio é considerada, ao lado do Caramuru de Durão, uma precursora do movimento indianista desenvolvido no Romantismo.


Fragmento retirado do CANTO TERCEIRO:

“No perturbado interrompido sono
(Talvez fosse ilusão) se lhe apresenta
A triste imagem de Sepé despido,
Pintado o rosto do temor da morte,
Banhado em negro sangue, que corria
Do peito aberto, e nos pisados braços
Inda os sinais da mísera caída.
Sem adorno a cabeça, e aos pés calcada
A rota aljava e as descompostas penas.
Quanto diverso do Sepé valente,
Que no meio dos nossos espalhava,
De pó, de sangue e de suor coberto,
O espanto, a morte! E diz-lhe em tristes vozes:
Foge, foge, Cacambo. E tu descansas,
Tendo tão perto os inimigos? Torna,
Torna aos teus bosques, e nas pátrias grutas
Tua fraqueza e desventura encobre.
Ou, se acaso inda vivem no teu peito
Os desejos de glória, ao duro passo
Resiste valeroso; ah tu, que podes!
E tu, que podes, põe a mão nos peitos
À fortuna de Europa: agora é tempo,
Que descuidados da outra parte dormem.
Envolve em fogo e fumo o campo, e paguem
O teu sangue e o meu sangue. Assim dizendo
Se perdeu entre as nuvens, sacudindo
Sobre as tendas, no ar, fumante tocha;
E assinala com chamas o caminho.”

2 comentários:

Fabiana disse...

Muito boa a explicação, apenas uma correção: Seria 'O Uraguai' a obra de Basilio da Gama.

Anônimo disse...

Qual é o livro de Antonio Candido que tem essa citação?
Por favor, coloca ai a referência!!!

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