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Santa Rita Durão

Santa Rita Durão nasceu em 1722, em Cata Preta, distrito de Mariana-MG. Estudou com os jesuítas no Rio de Janeiro e doutorou-se em Filosofia e Teologia em Coimbra. Entra para a ordem de Santo Agostinho, mas lá se desentende e foge para a Itália, só voltando a Portugal depois da queda do Marquês de Pombal. Em 1781 publica seu poema épico Caramuru, de subtítulo “Poema Épico do Descobrimento da Bahia”.

• Tema central: O poema fala sobre o descobrimento e conquista da Bahia pelo português Diogo Álvarez Correa, após o naufrágio deste no litoral nordestino. Santa Rita Durão narra ainda as aventuras de Diogo, bem como seu envolvimento com as Índias, sobretudo com Paraguaçu, com quem se casa, deixando para trás Moema que se suicida no mar ao ver partir o casal. O material do livro é híbrido, composto por fatos de nossa história, temperamento dos indígenas, lendas, etc.

• Modelo camoniano: O poema, ao contrário do Uruguai de Basílio, segue o esquema camoniano: estruturado em 10 cantos, com versos decassílabos e com o uso da oitava-rima, além de estar subdividido em proposição, invocação, dedicatória, narrativa e epílogo, de acordo com o modelo tradicional de epopéia. O único ponto destoante está no fato de o autor substituir a mitologia clássica pelo maravilhoso cristão. Nota-se, ainda, presentes no texto de Durão, reminiscências cultitas misturadas a traços de cosmovisão de seu tempo.

• Índio como matéria prima: O índio serve de matéria-prima a Durão “para exemplificar certos padrões ideológicos”, seguindo, no entanto, “uma corrente oposta à de Basílio, voltada para o passado jesuítico e colonial” (Bosi, 2004, p. 68). O lema do “bom-selvagem” leva o autor a buscar nos Tupinambás o espírito cristão e os dogmas católicos degradados pelos europeus libertinos. Contudo, essa posição com relação ao índio às vezes se apresenta ambígua, pois ele, ora é abordado com espanto (quando antropófagos), ora com edificação (quando religiosos).
Diferentemente de Basílio da Gama, que mostra o índio com lirismo e idealismo, Santa Rita Durão segue uma abordagem mais realista, na medida em que penetra na vida e costumes dos índios com intuito analítico, descrevendo costumes, técnicas e ritos de maneira pormenorizada. Contudo, não consegue se desvencilhar dos padrões europeus e contraria todo o princípio da realidade fisionômica e da cor dos indígenas, descrevendo Paraguaçu como uma moça branca:

“Paraguaçu gentil (tal nome teve),
Bem diversa de gente tão nojosa,
De cor tão alva como a branca neve,
E donde não é neve, era de rosa;
O nariz natural, boca mui breve,
Olhos de bela luz, testa espaçosa.”

• Corrente oposta a Basílio: Enquanto Basílio tinha como motivo de sua epopéia o combate aos jesuístas, Durão tem a religião como ideologia, justificando e louvando a colonização como empresa religiosa desinteressada. Para Bosi (2004, p. 69), “sua extrema fidelidade aos módulos clássicos e às hierarquias mentais da Contra-Reforma insere-o de pleno direito na linguagem conservadora que em Portugal resistiu à maré iluminista”.

• Repúdio à mitologia pagã: O autor de Caramuru, por seu conservadorismo religioso, condena a mitologia pagã, substituindo-a pelo maravilhoso cristão.

• Referências a fatos históricos: A epopéia de Santa Rita Durão traz em sua matéria narrativa episódios da história do Brasil desde seu descobrimento até o século XVIII, apresentando um panorama da vida e costumes indígenas. Tais características são consideradas antecipações românticas.

TRECHO DO EPISÓDIO DA MORTE DE MOEMA – CANTO VII
A Morte de Moema, Victor Meireles

“‘[...] Enfim, tens coração de ver-me aflita,
Flutuar moribunda entre estas ondas;
Nem o passado amor teu peito incita
A um ai somente, com que aos meus respondas:
Bárbaro, se esta fé teu peito irrita,
(Disse, vendo-o fugir), ah não te escondas;
Dispara sobre mim teu cruel raio...’
E indo a dizer o mais, cai num desmaio.

Perde o lume dos olhos, pasma e treme,
Pálida a cor, o aspecto moribundo,
Com mão já sem vigor, soltando o leme,
Entre as salsas escumas desce ao fundo:
‘Ah! Diogo cruel!’ disse com mágoa,
E sem mais vista ser, sorveu-se n’água.”

Um comentário:

Fabian disse...

Muito boa as explicações, não só esta, como todas que li até agora de literatura. Estão de parabéns!

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