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Tomás Antônio Gonzaga


Gonzaga veio para o Brasil com sete anos, passando sua infância na Bahia, onde estudou com os jesuítas. Formou-se em Coimbra e escreveu para a faculdade o Tratado de Direito Natural. Exerceu sua magistratura em Portugal (Beja) durante alguns anos e, aos trinta e oito anos, retornou para o Brasil na condição de Ouvidor de Vila Rica, onde, por entrar em desavenças com as autoridades locais, escreve as Cartas Chilenas e também a primeira parte de Marília de Dirceu, poemas inspirados na noiva do poeta Maria Joaquina Dorotéia de Seixas. É preso em 1789, acusado de envolvimento na Inconfidência Mineira. No cárcere, na Ilha das Cobras, escreve a segunda parte de Marília de Dirceu. Julgado, é mandado para Moçambique, onde reconstrói sua vida e morre.

Obra:
1.      Jurídica: Tratado de Direito Natural;
2.      Satírica: Cartas Chilenas;
3.      Lírica: liras de Marília de Dirceu.

  • “CARTAS CHILENAS”:

“Amigo Doroteu, prezado amigo,
abre os olhos, boceja, estende os braços
e limpa das pestanas carregadas
o pegajoso humor, que o sono ajunta.
Critilo, o teu Critilo, é quem te chama;
ergue a cabeça da engomada fronha,
acorda, se ouvir queres cousas raras.”

Poema satírico, contemporâneo da primeira parte das Liras, constitui-se de 13 cartas, das quais a 7ª e a 13ª nos chegaram fragmentadas. Escritas no intuito de satirizar o desafeto político de Gonzaga, o Governador Luís da Cunha Menezes, as Cartas, de anônima autoria, são assinadas por “Critilo” e direcionadas a um amigo chamado “Doroteu”. Os nomes das pessoas e lugares aparecem quase sempre deformados: Espanha, Madrid, Salamanca, Chile e Santiago representam Portugal, Lisboa, Coimbra, Minas e Vila Rica; o governador Menezes aparece sob o disfarce de “Fanfarrão Minésio”.
Poema de tom jocoso, as Cartas de Gonzaga versam sobre a prepotência, falta de decoro e desrespeito às leis por parte do governador. O crítico Alfredo Bosi pontua que as “cousas raras” referidas por “Critilo” (fragmento acima) “dão pretexto para descrever o mundo às avessas, O Chile (isto é, Minas) à mercê de Fanfarrão Minésio” (2004, p.75). Porém, nas críticas contidas nas Cartas não consta nenhuma contraposição ao sistema colonial, nem mesmo revoltas contra o colonizador, o se critica é apenas a má administração do governador. Daí Bosi ter definido como ideologia de Gonzaga o despotismo esclarecido e a mentalidade colonial.
Nos versos satíricos do magistrado há uma retomada do realismo (neste caso com tons caricatos) da vida doméstica, familiar, que fluem em versos decassílabos, brancos e soltos.
Por ser uma obra de denúncia, mas que se restringe apenas à acusação de pessoas, é considerada obra de circunstância. Contudo, as Cartas Chilenas é a obra satírica mais importante do século XVIII.

  • “MARÍLIA DE DIRCEU”:

É nas suas liras que Gonzaga demonstra-se árcade por excelência. O bucolismo pastoril predomina quase que totalmente na lírica do poeta, em especial na primeira parte:

"Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,
Que viva de guardar alheio gado;
De tosco trato, d'expressões grosseiro,
Dos frios gelos, e dos sóis queimado,
Tenho próprio casal, e nele assisto;
Dá-me vinho, legume, fruta, azeite;
Das brancas ovelhinhas tiro o leite,
E mais as finas lãs, de que me visto.
Graças, Marília bela,
Graças à minha Estrela!”

            A natureza está presente nos versos de Gonzaga de modo avassalador, como pano de fundo de seus idílios e devaneios amorosos. O poeta torna-se o pastor Dirceu, tomando como sua pastora e musa a bela e ideal Marília. O cenário acidentado, montanhoso de Minas é transformado em vastos campos de pastagem. Vocabulários como “vaqueiro”, “gado”, “pastores”, “monte”, “cajado”, “ovelhinhas” e “fonte” estão presentes por toda a sua lira, na qual vemos concretizar-se o ideal árcade de que a felicidade e a beleza decorrem da vida no campo.

            O racionalismo clássico também se faz presente por meio do predomínio da ordem direta das frases e pela clareza da expressão, sem muitas figuras de linguagem, construindo uma lógica clara, límpida, marcada pela simplicidade do raciocínio.

            Outra característica neoclássica presente no livro é a retomada da mitologia clássica. Entre os deuses do Olimpo que aparecem nas liras de Gonzaga, os de maior recorrência são Cupido, com suas flechas mortais, e Vênus, a quem Marília consegue vencer na beleza.

            A juventude da noiva, Maria Joaquina, agregada ao fato de ela ser de uma família de posses, pode ser a explicação para o narcisismo presente na obra. Em alguns versos fica evidente a autovalorização que o poeta faz de si, na exaltação da virilidade e da juventude, bem como da alusão à sua sensibilidade artística. 

            Mas é na segunda parte da obra que vemos despontar acentos novos na poesia de Gonzaga, que se afasta do convencionalismo e idealismo que dominaram a primeira parte das liras e alcança maior autenticidade. Escritos na prisão, os veros dessa parte expressam a solidão e saudade de Dirceu. A experiência do cárcere e da perda da musa leva o poeta a compor versos que exprimam o sentimento de injustiça, a solidão, a saudade de Marília, o medo do futuro e da morte. Tais sentimentos, contrários ao equilíbrio e leveza clássicos, levam Gonzaga a antecipações românticas. O pessimismo e o tom confessional de seus versos acentuam o “eu” dos poemas, fazendo com que o pastor imaginário da primeira parte ceda espaço para aproximações com o próprio poeta.

            Nas palavras de Massaud Moisés, a poesia de Tomás Antônio Gonzaga “apresenta duas faces contrastantes e complementares: quando imita os moldes clássicos e quinhentistas, é arcádica propriamente dita, ou neoclássica; quando reflete as novas inquietações que preparavam a eclosão do Romantismo, é pré-romântica".

            Exemplo de versos da segunda parte:

“Porém se os justos céus, por fins ocultos,
em tão tirano mal me não socorrem,
verás então que os sábios,
bem como vivem, morrem.

Eu tenho um coração maior que o mundo,
tu, formosa Marília, bem o sabes:
Um coração, e basta,
onde tu mesma cabes.”

Ø  INTERTEXTUALIDADE: Repare no primeiro verso da segunda estrofe: “Eu tenho um coração maior que o mundo”. Já leu algo parecido em algum outro poema? Sim... este verso de Tomás Antônio Gonzaga já foi motivo de alguns poemas de Carlos Drummond de Andrade. Leia os poemas “Poema das sete faces” ([...] Mundo mundo vasto mundo,/ mais vasto é meu coração.) e “Mundo grande” (Não, meu coração não é maior que o mundo./ É muito menor.[...]).

Marília de Dirceu é a lírica amorosa mais popular de nossa literatura. Após ser publicada em livro, em 1792, teve suas liras declamadas, musicadas e cantadas Brasil afora.

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