Pesquisar este blog

Segunda geração romântica - outros poetas


Casimiro de Abreu (1839 – 1860)

Meus oito anos

“Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!
[...]”






Poeta da segunda geração romântica de menor destaque, Casimiro de Abreu caiu no gosto do público pelo seu verso fácil e cantante, o que fez dele o poeta romântico mais popular de sua geração. Teve uma curta produção literária, tendo publicado um único livro de poesias: As Primaveras (1859). Morre aos 21 anos, tuberculoso. 

O tema mais constante de sua poesia foi a saudade da pátria longínqua, da infância e da família. Os versos que transcrevemos mais acima, retirados de seu mais famoso poema, são exímio retrato dessa temática da saudade. 

O amor também não escapa à pena do poeta, que retrata a sua relação com a virgem desejada como um jogo de amor e medo. O poeta ama e até é amado, mas tem medo de amar. No entanto, essa temática é desenvolvida sem muita profundidade, sendo marcada pelos impulsos emotivos de um jovem adolescente, o que faz com que seus versos sejam de uma inocente ingenuidade e simplicidade. Apesar disso ser alvo de fortes críticas ao poeta, há quem o admire justamente pela simplicidade de suas composições.

Pelo ritmo musical de seus versos, bem como pela ascessibilidade de sua linguagem, sem grandes complexidades filosóficas ou psicológicas, as poesias de Casimiro de Abreu agradavam mais aos leitores menos exigentes, tornando-o o poeta mais conhecido da segunda geração romântica.

Fagundes Varela (1841 – 1875)

Cântico do calvário

“Eras na vida a pomba predileta
Que sobre um mar de angústias conduzia
O ramo da esperança. Eras a estrela
Que entre as névoas do inverno cintilava
Apontando o caminho ao pegureiro.
Eras a messe de um dourado estio.
Eras o idílio de um amor sublime.
Eras a glória, a inspiração, a pátria,
O porvir de teu pai! - Ah! no entanto,
Pomba, - varou-te a flecha do destino!
Astro, - engoliu-te o temporal do norte!
Teto, - caíste!- Crença, já não vives!
Correi, correi, oh! lágrimas saudosas,
Legado acerbo da ventura extinta,
Dúbios archotes que a tremer clareiam
A lousa fria de um sonhar que é morto!”

Fagundes Varela explorou todos os temas românticos, inclusive o do índio, já deixado de lado pelos românticos de seu tempo. Mas, mais do que seus contemporâneos, Varela é autor de versos de inspiração patriótica (“O estandarte auriverde”), com os quais, já precedia, pelo espírito de exaltação nacionalista, o condoreirismo tão bem desenvolvido futuramente por Castro Alves. Da mesma forma, o poeta também fixou o mito do paraíso americano da liberdade em “Vozes da América”. Varela também foi precoce em introduzir o tema do negro, em “Mauro, o escravo”, só aprofundado mesmo na futura geração romântica.

Mas o melhor da produção literária de Fagundes Varela encontra-se nos versos voltados para a dicotomia cidade/campo. Com o lirismo bucólico de sua fase mais madura, o poeta descreve os costumes e os modismos da roça, terreno em que sua obra alcança a completude. São exemplos de poemas sobre esse tema: “Antonico e Corá”, “Mimosa”, “A Flor de Maracujá”.

Mas essa sua atração pelo campo é paradoxalmente alternada com uma intensa vida boêmia, o que, para Alfedo Bosi (História concisa da literatura brasileira) significa no poeta “a aversão radical a integrar-se no ritmo da vida em sociedade”. 

Poema que deve ser visto à parte é o “Cântico do Calvário” (transcrito parcialmente logo acima), escrito em memória do filho que falecera ainda recém-nascido. Trata-se de uma exímia elegia composta em versos brancos, na qual, finalmente, Varela se mostra original e particular.

Junqueira Freire


Morte

“Pensamento gentil de paz eterna
Amiga morte, vem. Tu és o termo
De dous fantasmas que a existência formam,
— Dessa alma vã e desse corpo enfermo.

Pensamento gentil de paz eterna,
Amiga morte, vem. Tu és o nada,
Tu és a ausência das moções da vida,
do prazer que nos custa a dor passada.

[...]

Por isso, ó morte, eu amo-te e não temo:
Por isso, ó morte, eu quero-te comigo.
Leva-me à região da paz horrenda,
Leva-me ao nada, leva-me contigo.”

Junqueira Freire tornou-se monge por razões familiares, mas, sem nenhuma vocação e com uma sexualidade latente e reprimida, viveu atordoado pelo enclausuramento forçado. Seus versos, em sua maioria, retratam a angústia do indivíduo atado a uma falsa vocação. Sua poesia, fortemente centrada no “eu” não apresenta grandes qualidades formais, caindo, como bem notou Alfredo Bosi, “no genérico, no prosaico e no cerebrino, fiando aquém da síntese conteúdo-forma” (História concisa da literatura brasileira). 

Sua obra pode ser mais propriamente caracterizada como autobiográfica, já que trata examente dos problemas do poeta com o sacerdócio. É marcante em seus versos o conflito do poeta entre a vida religiosa e a revolta com tudo o que presenciou dentro dela. 

Os desejos carnais ardentes do poeta aparecem em seus versos como sexualidade reprimida, consciência do pecado e sentimento de culpa. Daí seu intenso pessimismo e tristeza, que muitas vezes o levaram a desejar a morte, vista pelo poeta como alívio e paz eterna (como exemplo, veja o poema “Morte”, do qual retiramos, mais acima, apenas três estrofes). 

Sua única obra de poesia, “Inspirações do Claustro”, tem mais valor de testemunho sincero das experiências do autor do que valor propriamente estético.

4 comentários:

Anônimo disse...

JUNQUEIRA ERA UM POETA EGOCENTRISTA?

Prof.ª Poliana Ganan disse...

Na verdade, quando analisamos um texto literário, nossas apreciações são abstraídas das características da própria obra, de forma que não interessa à análise literária as características pessoais do escritor (por isso chamamos a voz que fala no poema de eu-lírico e a voz que fala nas narrativas de narrador, para não confundirmos essas vozes com a pessoa física e real do autor). Dito isso, vamos reformular sua pergunta: A poesia de Junqueira Freire é egocentrista?
De certa forma, pode-se dizer que sim. A palavra “egocêntrico”, ter o “eu” como centro, aplica-se não só à poesia de Junqueira Freire, mas também à obra dos outros poetas da segunda geração, de modo geral. Dizemos isso, não como uma depreciação (como o termo egocêntrico pode indicar), mas sim como uma característica recorrente na obra dos poetas desse período, que faziam da poesia um lugar de “derramamento do eu”, ou seja, espaço onde o eu-lírico discorre sobre suas angústias, anceios e frustações. Ao chamar esse tipo de poesia de individualista, egocêntrica, estamos apenas partindo de uma comparação com as outras gerações: a primeira, preocupada em reconstruir um passado nacional, um herói brasileiro, e a terceira, preocupada com os problemas sociais da época.
É claro que tudo o que dissemos não passa de considerações gerais sobre cada geração, sendo preciso, para um julgamente mais preciso e justo, uma análise mais acurada sobre a obra completa de cada um dos autores, para que eles não fiquem reduzidos a tendências. Mas isso já é assunto para artigo acadêmico, o que foge do objetivo deste site, voltado para o público do ensino médio.

Prof.ª Poliana Ganan

Anônimo disse...

CONFUSO.

Carine Vieira disse...

Qual a estrutura, as rimas, a versificação, o vocabulário e a estílistica do poema Morte do Junqueira Freire?

Postar um comentário