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Terceira geração romântica

“A praça! A praça é do povo
Como o céu é do condor
É o antro onde a liberdade
Cria águias em seu calor!
Senhor!... pois quereis a praça?
Desgraçada a populaça
Só tem a rua de seu...
Ninguém vos rouba os castelos
Tendes palácios tão belos...
Deixai a terra ao Anteu.”

(“O porvo ao poder”, Castro Alves) 



O poema acima pertence a Castro Alves, poeta do romantismo. Trata-se de versos improvisados pelo poeta em um comício republicano de que participava e que fora dissolvido pela polícia, fato que motivou-o, como protesto, ao improviso.

Observe que esses versos em muito se distinguem do nacionalismo indianista dos primeiros poetas da escola romântica, assim como distancia-se substancialmente do individualismo mórbido e angustiante dos poetas da segunda geração romântica. Perceba que no poema de Castro Alves, diferentemente das tendências seguidas pelos poetas que o precederam, o eu-lírico não fala a favor de si mesmo, mas do povo. A desigualdade social é colocada em pauta quando o poeta contrasta os lugares luxuosos e privados (castelos, palácios) dos homens de grandes posses (que, por isso mesmo, são chamados ironicamente de “Senhor”) com um lugar público (a praça, a rua), comum a todos e, por isso, lugar onde as pessoas de menores posses (repare que o poeta os denomina “povo”, coletivo massificador) podem frequentar. Repare, ainda, que as figuras utilizadas no percurso do poema leva-nos a lê-lo de forma exaltada, em alto e bom tom, e de preferência para um grande público. A poesia deixa de ser introspectiva, como na segunda geração romântica, para ocupar a praça, o lugar público, dirigindo-se para muitas pessoas, pois os problemas do mundo passam a ser, para o poeta, mais importantes do que as suas crises existenciais internas.

Esses apontamentos gerais que fizemos do poema de Castro Alves são exemplos das características mais marcantes da terceira geração romântica, na qual a história da literatura situa o poeta.

Mas antes de falarmos mais detalhadamente das características que marcaram os veros dos poetas da terceira geração romântica, convém que lembremos um pouco do contexto social e político que as motivaram.

Entre as décadas de 1860 e 1870, o poder monárquico no Basil passara por um processo de forte enfraquecimento, o que leva o país a um clima de agitações políco-sociais. Ideias liberais, abolicionistas e republicanas se difundem entre a população mais esclarecida. Grande é a influência, neste período, do poeta francês Victor Hugo, cuja obra toma como eixo temático a liberdade, o republicanismo, a democracia, a igualdade social e reformas que venham a tornar o mundo melhor. Esses ideais, aliados à fase não muito favorável do regime monárquico, vão mudar os rumos políticos do país e, como não podia de ser, incitará também à mudança o pecurso de nossa literatura. A terceira geração romântica, por se mostrar mais preocupada com a realidade social, é considerada uma geração de transição, pois nela podemos ver brotar as primeiras tendências do que posteriormente a história da literatura veio a chamar de Realismo.

A terceira geração do romantismo também foi chamada hugoana ou, ainda, condoneira. A primeira denominação é devido à forte influência que a obra de Victor Hugo exerceu nos poetas brasileiros da época. A segunda é uma metáfora do ideais elevados dos jovens poetas: “condor” é o nome de uma ave que voa acima das Cordilheiras dos Andes. Esta ave, assim como a águia, o falcão e o albatroz, tornou-se símbolo da terceira geração do romantismo. Assim como essas aves, de voos altos e, portanto, horizontes largos, os poetas do período acreditavam ter eles também capacidade de enxergar mais longe e tomaram para si a missão de transmitir o que viam ao povo, para que este também se conscientizasse de seus ideais de liberdade, justiça e igualdade. Outra analogia que se pode fazer com essas aves-símbolo é com a ideia de liberdade, tão cara aos poetas da terceira geração, que pode ser associada ao alto voo.

Entre as principais características da poesia da última geração romântica, listamos abaixo as mais gerais:

• Poesia de fundo social, defensora da República e do Abolicionismo. Além disso, os versos desse período estão voltados para os pobres, marginalizados e negros escravos.

• Há ênfase na função apelativa da linguagem. A poesia dessa época recusa o lamento introspectivo e individualista da geração que a precede. Fala dos homens e para os homens. Quer ser ouvida e, por isso, alcança as praças, os lugares públicos, as multidões. Quer convencer o outro e, para tanto, não economiza retórica e eloquência. Foi por isso chamada “poesia de comício”.

• A mulher deixa de ser idealizada para ser apresentada de forma concreta, tocável. A relação entre os amantes, em negação ao amor platônico das gerações anteriores, acontece de fato e a atmosfera casta e divina na qual a mulher é envolvida nas gerações passadas é substituída por uma atmosfera de sensualidade e erotismo. Dessa forma, a mulher passa a ser vista, como ser carnal que é, em suas virtudes e pecados.

• Com relação às figuras de linguagem mais empregadas, os poetas dessa geração ousaram nas metáforas, abusaram das hipérboles, antíteses retumbantes e apóstrofes violentas. Além disso, revelaram o gosto pela frase pomposa e retórica grandiloquente.

Os poetas que mais se destacaram desta geração foram: Castro Alves, Sousândrade e Tobias Barreto. Os dois últimos acabaram sendo ofuscados pelo brilho reluzente do primeiro, considerado o maior poeta da terceira geração romântica.

*Intertextualidade: O poema citado logo no início do tópico inspirou o famoso samba “Um frevo novo”, de Caetano Veloso. O samba, que começa com os versos “A praça Castro Alves é do povo/ como o céu é do avião”, promove um nítido diálogo com os versos do célebre poeta baiano. Confira:



2 comentários:

Anônimo disse...

resumo bom ajudo bastante

Anônimo disse...

Booom.....

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