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Terceira Geração Romântica: Castro Alves (1847 – 1871)

Nascido no Estado da Bahia, na cidade que hoje leva seu nome, Castro Alves fez seus primeiros estudos em Salvador, junto com o colega Rui Barbosa. Estudou na Faculdade de Direito do Recife, onde se juntou a Tobias Barreto e participou ativamente da vida literária acadêmica. Já na adolescência, Castro Alves produzia precocemente seus primeiros versos, começando, na Faculdade, a alcançar notoriedade. Tinha uma vida amorosa intensa, da qual se pode destacar o romance com a atriz Eugênia Câmara, que lhe rendeu boa parte dos seus versos líricos. Em viagem para o sul do país com a atriz, Castro Alves conhece José de Alencar e Machado de Assis. Matricula-se no 3º ano da Faculdade de Direito de São Paulo, na mesma turma que Rui Barbosa. O rompimento com Eugênia deixa o poeta desolado e, mais uma vez, juntam-se à sua obra lírico-amorosa intensos e dolorosos versos. Para esquecer a perda, o poeta distrai-se em caçadas e em uma delas fere o pé com um tiro de espingarda, o que o leva a amputá-lo. Bastante debilitado, a tuberculose que se manifestara já no ano de 1863, quando o poeta tinha apenas dezesseis anos, agravou-se, o que leva Castro Alves a voltar para a Bahia, hospedando-se em fazendas de parentes, em busca de melhora. Neste período, cuida da edição de seu primeiro livro, único a ver publicado: Espumas Flutuantes. Morre um ano depois desta publicação, em 1871, com 24 anos.

“Vulgarmente melodramático na desgraça, simples e gracioso na ventura, o que constituía o genuíno clima poético de Castro Alves era o entusiasmo da mocidade apaixonada pelas grandes causas da liberdade e da justiça — as lutas da Independência na Bahia, a insurreição dos negros de Palmares, o papel civilizador da imprensa, e acima de todas a campanha contra a escravidão”, assim falou de Castro Alves o também poeta Manuel Bandeira. Fortemente influenciado por Victor Hugo, bem como pela nova condição do Brasil, que aos poucos deixava de ser puramente rural para se urbanizar, o que levou ao desenvolvimento de ideais democráticos e o de repulsa pela “moral do senhor-e-servo”, Castro Alves foi inovador justamente pelo seu epos libertário. Além disso, original na obra do poeta será também os seus versos de substância amorosa pela franqueza e realismo no exprimir das paixões e desejos e na descrição erótica da mulher.

Na poesia social, humanitária e nacionalista, Castro Alves exibe toda a sua eloquência épica. Seus versos de temática social, de tom oratório e de excepcional comunicabilidade, aproximam-se da retórica, esquecendo-se, verdade seja dita, por vezes, nela mesma, acabando em verborragia vazia, ancorada em combinações sonoras sem nexo. Esse exagero advém das influências de sua época, da qual a oratória era a menina dos olhos. Mas, se por um lado o jovem poeta abusou forçosamente da superposição de imagens e de aposições, pecando, ocasionalmente, pelo excesso e mau-gosto, por outro, ele soube, com esses e outros recursos, alcançar, nas palavras de Manuel Bandeira, “a maior força verbal e a inspiração mais generosa de toda a poesia brasileira”.

Vale lembrar que o tom oratório dos versos de Castro Alves deve-se a um propósito pragmático dos seus cantos, o de alcançar multidões. Seus poemas são escritos com a intensão de serem declamados em praça pública, teatros e grandes salas, como verdadeiros discursos. É essa a missão do poeta, a de anunciar a todos o “Novo Mundo”, a de persuadir a todos da necessidade de mudança. Daí a épica retumbante de seus versos, as apóstrofes violentas, as antíteses constantes, as hipérboles e metáforas ousadas, enfim, o tom grandiloquente de seus cantos.

Inspirado por Victor Hugo, Castro Alves foi o arauto da liberdade e da justiça. Envolvendo-se em todos os acontecimentos históricos de sua época, foi vate e profeta ao anunciar a abolição da escravatura e a instauração do regime republicano.

De sua poesia social, destacam-se dois longos poemas com os quais, segundo Manuel Bandeira, Castro Alves atingiu “a maior altura de seu estro”: “Vozes d’África” e “O Navio Negreiro”, ambos pertencentes ao livro Os Escravos. No primeiro, temos o continente escravizado a implorar justiça de Deus e no segundo temos o evocar dos sofrimentos dos negros em um navio que transportava escravos da África para o Brasil.
Enquanto poetas de gerações românticas anteriores tomaram o índio como herói, Castro Alves o fez com o negro. Escolha não muito tranquila, já que o negro, ao contrário do índio, era tido como ser sem-alma, não tendo para a sociedade nenhum valor mítico. Devido a isso, o negro, na poesia de Castro Alves, é quase sempre concebido como um mulato com sensibilidades de um branco.

Mas o poeta baiano não foi o primeiro da literatura brasileira a tomar como herói o negro escravizado, porém, tornou-se o poeta por excelência dos escravos, sendo inclusive chamado de “O Poeta dos Escravos”, ao dar ao negro uma atmosfera de dignidade lírica. Ao mostrar a sua bravura e coragem, bem como suas dores e amores, Castro Alves eleva o negro ao mesmo patamar do branco e do índio literário.
Abaixo, transcrevemos trechos do poema “Vozes d’África” e indicamos um vídeo com uma declamação de trechos do poema “O Navio Negreiro” com o ator Paulo Autran e imagens do filme “Amistad”, de Steven Spielberg:

Vozes d’África

Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?
Em que mundo, em qu'estrela tu t'escondes
Embuçado nos céus?
Há dois mil anos te mandei meu grito,
Que embalde desde então corre o infinito...
Onde estás, Senhor Deus?...

[...]

Cristo! embalde morreste sobre um monte
Teu sangue não lavou de minha fronte
A mancha original.
Ainda hoje são, por fado adverso,
Meus filhos - alimária do universo,
Eu - pasto universal...

Hoje em meu sangue a América se nutre
Condor que transformara-se em abutre,
Ave da escravidão,
Ela juntou-se às mais... irmã traidora
Qual de José os vis irmãos outrora
Venderam seu irmão.

Basta, Senhor! De teu potente braço
Role através dos astros e do espaço
Perdão p'ra os crimes meus!
Há dois mil anos eu soluço um grito...
escuta o brado meu lá no infinito,
Meu Deus! Senhor, meu Deus!!...


O Navio Negreiro


A poesia lírica de Castro Alves está representada no livro Espumas Flutuantes. Contudo, este livro não é composto exclusivamente por versos líricos, pois nele ainda figuram algumas composições de caráter épico-social, tais como “O Livro e a América”, “Ode ao Dous de Julho” e “Pedro Ivo”.

Ao contrário de sua poesia épico-social, a poesia lírica do Poeta dos Escravos exprime-se quase sempre sem ênfase e às vezes com exemplar simplicidade. Na lírica, seu verso se faz sugestivo e as metáforas naturais. A experiência amorosa é relatada de maneira integral, em toda a sua plenitude sentimental e carnal. Em Castro Alves, o amor é desejo, vibração da alma e do corpo, superando, dessa forma, o amor como esquivança e desespero ansioso da geração anterior. Sobre isso, apontou Machado de Assis que a musa de Castro Alves tinha feição própria e que, finalmente, aparecera um poeta original. Abaixo, um trecho do poema “O Adeus de Tereza”:

A vez primeira que eu fitei Teresa,
Como as plantas que arrasta
a correnteza,
A valsa nos levou nos giros
seus...
E amamos juntos... E depois
na sala
"Adeus" eu disse-lhe
a tremer co'a fala...

E ela, corando, murmurou-me: "adeus."

Uma noite... entreabriu-se um reposteiro...
E da alcova saía um cavaleiro
Inda beijando uma mulher sem véus...
Era eu... Era a pálida Teresa!
"Adeus" lhe disse conservando-a presa...

E ela entre beijos murmurou-me: "adeus!"

Passaram tempos... sec'los de delírio
Prazeres divinais... gozos do Empíreo...
... Mas um dia volvi aos lares meus.
Partindo eu disse — "Voltarei!... descansa!...
Ela, chorando mais que uma criança,

Ela em soluços murmurou-me: "adeus!"

Quando voltei... era o palácio em festa!...
E a voz d'Ela e de um homem lá na orquesta
Preenchiam de amor o azul dos céus.
Entrei!... Ela me olhou branca... surpresa!
Foi a última vez que eu vi Teresa!...

E ela arquejando murmurou-me: "adeus!"

Além do tema do amor, também figuraram na poesia lírica de Castro Alves os temas da natureza e da morte. As imagens e metáforas grandiosas do poeta são inspiradas nos aspectos grandiosos da natureza, tais como o oceano, o deserto, o infinito. Também são escolhidas com o mesmo propósito engrandecedor as aves de grande porte e de alto voo, como o condor, a águia, o albatroz. Quando questionado, em entrevista concedida ao escritor e professor Augusto Sérgio Bastos, sobre a poesia na metade do séulo XIX, Castro Alves respondeu:

“A poesia na terra dos Andradas, dos Pedros Ivos, e dos Tiradentes deve ser majestosa como as matas virgens da América; arrojada como seus rios gigantes; livre como os ventos que passam gementes por suas várzeas, e que zurzem os costados pedregosos dos seus gigantes de granito.”

Castro Alves toma a natureza como metáfora para a expressão de ideais elevados e da volúpia do amor e do desejo, retratando as suas aspirações ao lado das paisagens brasileiras em versos de beleza incomparável.
Também a morte, que perseguiu o poeta desde cedo (aos 16 anos se manifestara no poeta a tuberculose), foi tema recorrente na poesia de Castro Alves. Porém, ao contrário dos poetas que o precederam, o jovem baiano não desejava a morte, não a louvava em seus versos. A morte, em Castro Alves, aparece como amargura limitadora do desejo de viver do poeta. Castro Alves ama a vida e seus prazeres, tem desejo por mudar as estruturas sociais de seu país, quer justiça e igualdade, quer mais vida para cantar esses ideais, para bradar aos céus, ao oceano, o seu canto. Exímio representante dessa temática é o poema “Mocidade e Morte”, um dos mais belos representes da lírica de Castro Alves, que, apesar de ter a morte como tema, não deixa de ser um hino de celebração e amor à vida:

Mocidade e Morte

Oh! Eu quero viver, beber perfumes
Na flor silvestre, que embalsama os ares;
Ver minh'alma adejar pelo infinito,
Qual branca vela n'amplidão dos mares.
No seio da mulher há tanto aroma...
Nos seus beijos de fogo há tanta vida...
— Árabe errante, vou dormir à tarde
À sombra fresca da palmeira erguida.

Mas uma voz responde-me sombria:
Terás o sono sob a lájea fria.

Morrer... quando este mundo é um paraíso,
E a alma um cisne de douradas plumas:
Não! o seio da amante é um lago virgem...
Quero boiar à tona das espumas.
Vem! formosa mulher — camélia pálida,
Que banharam de pranto as alvoradas.

[...]

E eu sei que vou morrer... dentro em meu peito
Um mal terrível me devora a vida:
Triste Ahasverus, que no fim da estrada,
Só tem por braços uma cruz erguida.
Sou o cipreste, qu'inda mesmo flórido,
Sombra de morte no ramal encerra!
Vivo - que vaga sobre o chão da morte,
Morto - entre os vivos a vagar na terra.

[...]

E eu morro, ó Deus! na aurora da existência,
Quando a sede e o desejo em nós palpita...

[...]

Sinto que do viver me extingue a lampa...
Resta-me agora por futuro — a terra,
Por glória — nada, por amor — a campa.

Adeus! arrasta-me uma voz sombria
Já me foge a razão na noite fria!..

Um comentário:

Anônimo disse...

Legal... um bom texto, bem completo :)

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