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Macedo e Manuel Antônio de Almeida

Joaquim Manuel de Macedo

Autor do primeiro romance urbano da literatura brasileira (“A Moreninha”), Macedo deixou uma obra extensa, atuando como romancista, dramaturgo e cronista, além de escritos sobre política. Tão longa obra exlica-se pelo vasto período em que foi produzida: Macedo foi o escritor cuja obra atravessou todo o Romantismo, visto que escreveu dos anos 40 aos anos 70. Contudo, não há em sua produção nem um progresso na técnica literária, sendo sua mais importante obra justamente o seu romance inaugural. Todos ou seus posteriores dezessete romances repetem, de certa forma, a receita descoberta em “A moreninha”. Nessa “receita”, a narrativa normalmente gira em torno de um namoro difícil ou impossível, de um mistério sobre a identidade de uma personagem importante para a intriga e seu reconhecimento final, de mal-entendidos, orgulho, situações bufas, etc. Suas personagens são superficiais e não convincentes, não havendo grandes penetrações psicológicas, já que o autor prioriza o exterior delas, seus atos, gestos, palavras, roupas, etc.

Quanto à linguagem, pode-se dizer que chega a ser coloquial e espontânea nos diálogos, o que reflete a experiência de Macedo como dramaturgo, porém, é elaborada e obedece ao padrão normativo da língua portuguesa nas narrativas e digressões, traços caracteríscos do Macedo professor de português e homem do Paço.

O Romance urbano de Joaquim Manuel de Macedo descreve com fidelidade os ambientes, cenas, costumes e tipos do Rio de Janeiro do Império, razão pela qual sua obra vale como documento histórico da vida urbana do século XIX.

Macedo foi o escritor mais lido durante o final da década de 40 e começo da de 50. Isso devido à sua trama fácil, voltada para os costumes da sociedade carioca e, logo, para o público burguês leitor. As pequenas intrigas de amor, acompanhadas de um astusioso jogo de suspense e seguidas do já aguardado “happy end”, caíram no gosto do público.

Manuel Antônio de Almeida

Única obra de Manuel Antonio de Almeida, “Memórias de um Sargento de Milícias” surgiu como romance de folhetim no jornal “Correio Mercantil” do Rio de Janeiro. O romance era publicado semanalmente em capítulos que circularam de junho de 1852 a julho de 1853. Suas primeiras publicações, em folhetim e depois em livro de dois volumes, vinham assinadas pelo pseudônimo de “Um Brasileiro”. Somente a partir da terceira edição (póstuma) é que aparece o nome de Manuel Antonio de Almeida.

O enredo da obra gira em torno de Leonardo, filho de Leonardo Pataca e de Maria da Hortaliça, e suas numerosas aventuras no Rio de Janeiro do início do século XIX. Enjeitado pela mãe e pelo pai, Leonardo é criado e amparado pelo padrinho e depois pela madrinha, mas cedo revela um temperamento folgazão e traquina. Já homem, dá-se de amores a Luisinha, mas a jovem se casa com José Manuel, quando vê nosso herói engraçando-se com Vidinha. Posto entre as grades pelo Major Vidigal, dali sai como praça. Pouco tempo depois, volta à prisão, mas, com a intervenção da madrinha e de Maria, ganha novamente a liberdade, saindo com a promoção a sargento de milícias. Nesse ínterim, morre José Manuel, e Leonardinho, enfim, casa-se com Luisinha.

Como se vê, contrariamente aos romances que o antecederam, “Memórias de um Sargento de Milícias” presenteia, com seu final feliz, a malandragem do protagonista, que acaba se dando bem mesmo que por meios “tortos”. Esses e outros aspectos fazem com que a obra de Antônio de Almeida se diferencie substancialmente dos romances publicados em folhetins do século XIX. Talvez por isso “Memórias de um Sargento de Milícias” não tenha alcançado popularidade entre o público leitor da época, obtendo melhor aceitação na posteridade.

Chama a atenção no romance de Almeida o fato de ele não se encaixar em nenhuma das vertentes ideológicas que sustentaram o romantismo, tais como indianismo, nacionalismo ufanista, redenção pela dor e morte, exaltação do sofrimento, maniqueísmo, etc. Devido a isso, é considerado pela crítica como romance extemporâneo, pois, apesar de situar-se no romantismo, apresenta fortes características do Realismo, além de ser considerado também um precursor das ideias modernistas de “arte brasileira”.

O romance de Manuel Antônio de Almeida apresenta traços do Realismo, já que, diferentemente de seus contemporâneos, adotou como personagens tipos da camada mediana da sociedade da época, até então abandonados pela literatura, tais como, o barbeiro, a comadre, os meirinhos, etc. Constam também rápidas passagens pelo subúrbio carioca.

Traços modernistas também podem ser vislumbrados neste romance. Primeiro, porque o autor escolhe como herói um, na realidade, “anti-herói”, visto que Leonardinho não se enquadra nos padrões morais estabelecidos pela época, sendo o primeiro herói “malandro” de nossa literatura. Segundo, porque o relato assume um tom de crônica, o que dá mais leveza à linguagem, que se aproxima da fala, sendo, portanto, mais direta e coloquial. Além disso, podem ser considerados como traços modernistas a ironia do narrador, que ao longo do romance tece comentários jocosos a propósito do que narra, e o rompimento com a forma “disciplinada” de narrar, ora adotando uma terceira pessoa, ora mudando para uma primeira pessoa, dialogando com o leitor e estabelecendo uma relação de cumplicidade com ele.

Por outro lado, suas personagens não oferecem grande complexidade psicológica individualizante. Restringem-se à condição de “tipos” sociais, ou seja, figuras representativas de uma camada mais específica da sociedade. Mas, a estrutura maniqueísta é rompida: as personagens praticam tanto o “bem” quanto o “mal”, não estando nem do lado dos heróis nem dos vilões. Talvez aí esteja o sentido profundo e original do romance de Almeida, neste oscilar dos personagens entre a ordem e a desordem, característica estudada pelo crítico Antonio Cândido e publicada em ensaio decisivo para a crítica de “Memórias de um Sargento de Milícias” (CÂNDIDO, A. Dialética da Malandragem: caracterização das Memórias de um sargento de milícias. In: Revista do Instituto de estudos brasileiros, nº 8, São Paulo, USP, 1970, pp. 67-89).

Saiba mais sobre este romance e sobre o ensaio de Cândido em tópico específico situado em “Obras comentadas”.

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